O liberalismo: um compromisso acima de qualquer envergadura ideológica

Os liberais brasileiros precisam é de uma agenda, de um programa mínimo acerca da “boa sociedade”, para usar da expressão de Walter Lippman, e não de uma “ideologia”, que não fará senão trair o liberalismo (BARROS, 1992, p.93).

A citação acima, do Prof. Roque Spencer Maciel de Barros no artigo Liberalismo e ideologia, de 1989, serve muito para que reflitamos sobre a atual situação do debate liberal dentro do nosso país. Com essa já prolongada crise, que passa pela esfera econômica e representativa, a discussão das ideias liberais muito se reavivou – algo que também aconteceu com destaque entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, com a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria e a derrocada do socialismo real. Movimentos liberais mais ou menos isolacionistas dentro de seus objetivos surgiram e utilizam as redes sociais como grandes ferramentas de divulgação de suas mensagens. Porém, além de tudo o que já foi debatido: limites da atuação do Estado na esfera econômica, estímulos à atividade empreendedora e outros possíveis temas, é importante refletirmos um pouco mais minuciosamente acerca do liberalismo e do que caracteriza uma ideologia, considerados tout court. Eles se diferem ou se igualam? Quais fronteiras nós podemos traçar entre eles? Se realmente se diferem, o que os distingue em suas pretensões? Neste mês e tendo em vista também o processo eleitoral, é claro, vale a pena nos ocuparmos desse assunto bastante instigante.

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Ainda o processo eleitoral e seus entraves: a propaganda desdenhando da verdade

Terminei o artigo do mês passado ressaltando a importância da modéstia na política ao reiterar que cabe ao Estado lutar contra a miséria evitável, deixando o aumento da felicidade, de um modo geral, por conta da iniciativa privada ou individual. Tal observação apresenta-se mais uma vez como pertinente na análise dos efeitos da propaganda no processo eleitoral. Antes disso, nós devemos achar importante o esclarecimento da atitude da posição racionalista em face de outras tais como o apelo à violência e uma inconsequente recorrência à arte da persuasão, por meio da propaganda, para convencer alguém ou mesmo um país inteiro a aderir a determinados ideais. Popper diz em Utopia e Violência:

Um racionalista, no sentido em que uso aqui o termo, é uma pessoa que se esforça por chegar às decisões por meio de argumentos, em alguns casos, graças a um compromisso mas nunca através do recurso à violência. Um racionalista é uma pessoa que prefere não ser bem sucedida na sua tentativa de convencer alguém, a ser bem sucedida em dominar esse alguém pela violência, pela intimidação ou pela ameaça, ou apenas pela arte da persuasão recorrendo à propaganda (POPPER, 1981, p.4).

Portanto, quando duas pessoas estão em desacordo a razão disso é por terem opiniões ou interesses diversos ou mesmo ambas as coisas. Existem na vida social, de acordo com Popper, divergências de opinião que precisam ser resolvidas de qualquer maneira. Segue-se que há perguntas que precisam ser esclarecidas pois negligenciá-las nos levará a novas dificuldades cujo efeito acumulativo causa uma tensão insuportável.

Diante disso, nesse contexto de opiniões ou interesses conflitantes, como podemos chegar a uma decisão? O filósofo austríaco assinala duas vias possíveis: o argumento (quando uma pessoa recorre de seus direitos em um tribunal, por exemplo) ou a violência. Ou podemos buscar um compromisso razoável ou uma tentativa de rejeitar violentamente o interesse ou as opiniões de nossos adversários – seja por meio de emboscadas, recorrendo ao uso de armas etc.

Com tudo isso em vista, como podemos compreender, da melhor forma, a atitude ou posição racional? Popper diz que pode ser a partir de “[…] uma distinção clara entre a tentativa de convencer alguém por meio de argumentos e a tentativa de persuadir esse alguém por meio da propaganda” (POPPER, 1981, p.4). Para entender de forma ainda mais interessante essa diferenciação, pensemos no nosso país, que vive um ano eleitoral e os ânimos se acirram a cada dia que passa.

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O Estelionato Pedagógico da BNCC

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Tem algumas mentiras brabas aqui nesta matéria:

Polêmicas do novo currículo de história serão temas de seminários #G1http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/01/polemicas-do-novo-curriculo-de-historia-serao-temas-de-seminarios.html?utm_source=twitter&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

Em primeiro lugar, não há nenhuma dedução lógica de que as desigualdades sociais diminuirão porque o país adotará um currículo comum em todo o território nacional. Até pelo contrário, se tais desigualdades existem e devem ser tratadas por políticas públicas, estas devem se diferenciar com o intuito de igualar os desiguais. Uma coisa é uma igualdade jurídica, outra bem diferente é querer que os diferentes estratos econômicos e sociais tenham o mesmo tratamento ao ponto de ignorar suas particularidades regionais e socioculturais.

Em segundo, pelo que sei os currículos são múltiplos e variados, sobretudo em países com grande diversidade regional. O que existe no sentido de homogeneização é uma postura de alguns grupos que querem impor uma visão de mundo sobre os diversos municípios, cidades, estados etc., no sentido de restringir as opções de ensino. Se certo ou errado em seus conteúdos é outra questão, mas o que não se pode é achar que alguém detém a solução mágica para o currículo perfeito como se tirasse o coelho da cartola.

O que me impressiona é a sucessão de fatos sem nexo, se o ex-ministro da educação, Renato Janine Ribeiro apresenta um documento e depois, já desempossado admite falhas sem sequer fazer uma defesa do mesmo, o que me passa a nítida impressão de que ele não leu e nada mais fez que terceirizar sua confecção.

Assim como a desculpa esfarrapada do MEC, de que se limitou ao papel de “condutor do processo” e não de autor do documento. Ora! Quem foi que autorizou sua impressão? Não tem o selo do ministério ali, como uma assinatura? O selo do MEC vale a mesma coisa que nada? Se autorizou, consentiu, se consentiu, dá no mesmo que ser autor ou coautor, que seja. E depois dizer que não há viés ideológico ao tratar de minorias é palhaçada. Claro está que se eu opto por um grupo étnico ou região do globo em detrimento de outros e outras, eu estou fazendo uma opção deliberada por um ponto de vista, pela percepção e enfoque neste grupo. Eu fico me perguntando o que esse povo entende pelo termo ideologia… Denis Mizne, da Fundação Lemann diz que há “uma visão de mundo por trás do currículo de história em qualquer lugar”, mas que “a necessidade de um currículo é uma coisa que não é uma questão ideológica”. Espere aí! Por trás do currículo atual existe uma visão de mundo, o que os filósofos alemães chamavam de weltanschauung, mas quando se pensa em mudar isto do ponto de vista formal, sob orientação governamental não é outra senão apenas “avançar em educação”. Por que temem a sinceridade? Basta assumir que tem um projeto calcado em uma visão de mundo. Mas a hipocrisia é forte… Ao mesmo tempo que Mizne diz que “não é a visão do governo”, mas “um documento que está em debate, que vem da sociedade”, ele quer que ignoremos que esta “sociedade” são grupos com esta visão ligados ao governo federal. Só que assumir isto implicaria em assumir uma mudança de narrativa, ora vejam só… Ideológica? Não é impossível encontrar um currículo de história mais objetivo e equilibrado se realmente quisermos… para ser mais justo e deveríamos começar por uma repartição equânime dos continentes com acontecimentos para a história humana (o que não incluiria a Antártida com o mesmo espaço, p.ex.).

Que houve domínio e subjugação de povos ninguém nega, agora simplificar relações entre grupos e nações, como se uma fosse o protagonista e outra o antagonista, uma vítima histórica e uma variante do grande satã é o que se depreende desta base nacional curricular comum que, felizmente, foi abortada. Se quisermos mesmo dar mais ênfase à história da América e África temos que mostrar como aqui indígenas e mestiços caçaram índios não aculturados, como do outro lado do Atlântico, africanos comercializaram seres humanos com europeus para suas lavouras no novo mundo etc. Isto também está em evidência ou só os ataques de colonizadores/conquistadores europeus contra povos belicamente menos aparelhados?

Não tem que se adotar uma perspectiva eurocêntrica, nem tampouco “afroamericocêntrica”. A questão é que os proponentes da BNCC, simplesmente, abortaram qualquer contribuição europeia, qualquer uma. Eles recortaram de tal modo a selecionar apenas o que lhes convinha. Quando digo que lhes convinha é porque desta forma fica crível caricaturar a história mundial como uma peça do bem contra o mal, com a prevalência deste e de como nós, os bons, mas dominados temos que reagir. A forma de reação é óbvia, caberá a um estado regulador e provedor que deve tributar mais e mais o mercado a título de efetivar sua “compensação histórica”. Não há perspectiva em torno da mobilidade social pautada no esforço e mérito próprios, mas na socialização de recursos através de um mediador, o estado que, só não irá fazer isto através de um profundo desequilíbrio de poder para aqueles que são facilmente manipuláveis, ou seja, que querem se enganar.

Alguém deve estar se perguntando se as disciplinas não devem ser reestruturadas de tempos em tempos? Um exemplo recorrente é o que se fez em minha área de atuação, a Geografia em relação ao seu “eixo fundamental” definido pela categoria espaço, ao que já dediquei um artigo específico. Mas, espaço, território, região são categorias de análise tão essenciais a esta disciplina, como é o tempo para a História e nem por isto todos tem um consenso sobre o que de mais relevante ou determinante ocorreu através dele. Analogamente, nem sempre há consenso sobre a ordem de grandeza dos fenômenos físicos e sociais que devem ser espacializados na análise geográfica. O que existe de, tecnicamente objetivo na geografia é a grandeza escalar, o que é territorialmente maior ou menor e na história, a sucessão cronológica, o que veio antes ou depois. Se nossos professores e proponentes curriculares se ativessem a isto, boa parte do lixo doutrinário seria depurado.

Não se enganem, os proponentes desta malfadada BNCC querem nos fazer uma “venda casada”, pois não explicam em detalhes o que deve e porque deve ser suprimido e qual a justificativa filosófica, i.e., ideológica de sua hierarquia conceitual, pois se o fizessem, estariam se revelando.

Enfim, por ora, com o afastamento do PT no governo federal ganhamos uma e barramos a aplicação deste lixo ideológico que era a BNCC em todo o território nacional, mas seria um erro, enorme e imenso erro acharmos que eles desistiram ou não irão tentar novamente. Como é um conhecido clichê, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Anselmo Heidrich

22 set. 16

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A Corrupção da Geografia: do pragmatismo à ideologia[i]

 

 

por Anselmo Heidrich[ii]

 

 

O pragmatismo que se avizinhava no pós-guerra, pela reconstrução dos países europeus e, do outro lado do Atlântico pelo avanço capitalista e tecnocrático não deixaria a Geografia isenta de sua cota de influência. Em um texto de discussão metodológica e histórica da disciplina, dois professores de Londres comentam:

“Não pretendemos, sem dúvida, sugerir tenha sido prematura a especialização. Ao contrário, foi natural e necessária. E sem o grande acervo de fatos que produziu, não se poderia ter esperanças de alcançar uma síntese geográfica satisfatória. As próprias explorações primárias ainda estavam por terminar quando Humboldt e Ritter redigiram sua obra. O interior da África não seria conhecido, até 1880, sem qualquer acepção que se possa ter, ao passo que uma grande parte da Ásia, sobre a qual escreveram os dois pioneiros, permaneceu, em essência, terra povoada de mistérios até que a desvendaram, na segunda metade do século XIX, os grandes exploradores russos, ao lado de Sven Hedin, Aurel Stein e Richthofen.

Mais importante para o futuro da Geologia, como da Geografia, terá sido, talvez, o trabalho inicial do Levantamento Geológico Americano, as explorações de Hayden e Powell no Oeste árido dos Estados Unidos. Exploração fundamental, quase satisfatoriamente cientifica quanto aos seus métodos, foi igualmente a da expedição do Challenger, empreendida de 1870 a 1873, que estabeleceu, pela primeira vez, a carta das profundidades dos oceanos e examinou, sistematicamente, as características e os movimentos das águas de superfície. Ela proporcionou também os dados para o primeiro levantamento geral satisfatório do clima dos oceanos. Humboldt percebera o valor das linhas isotérmicas e as utilizara, tanto quanto o permitiram os escassos dados então disponíveis. Foi Buchan, porém, meteorologista da expedição do Challenger, o primeiro a desenhar mapas mundiais de temperatura, pressão, etc., os ancestrais das cartas que nos são familiares, encontradas nos atlas modernos.

Igualmente importante para as últimas finalidades da Geografia foi a publicação, pelos Governos, do levantamento de mapas topográficos e geológicos desenhados em grande escala. A França e a Grã-Bretanha já estavam cobertas de mapas topográficos satisfatórios por volta de 1870, e o levantamento geológico primário de ambos os países encontrava-se bastante adiantado. Desenvolvimento paralelo ocorreu em outros países civilizados. O advento dos serviços meteorológicos, durante a segunda metade do século, assinalou o aparecimento da Meteorologia Sinóptica e da Climatologia Local pormenorizada. O crescimento do vulto das estatísticas oficiais sobre população, produção e comércio acrescentou maior soma de material à síntese geográfica em perspectiva, num grau que chegou a ser quase desconcertante.

À luz desse acervo de conhecimentos imensamente aumentado, a obra de Humboldt e Ritter se afigura, de um modo inevitável, desprovida do adequado equipamento. E a tarefa de seus sucessores parece acrescida a um nível quase impossível de atingir-se quanto à sua amplitude e à suas dificuldades. Os homens revelaram poderoso e persistente interesse pelo seu meio, tornando-se, sob múltiplos aspectos, mais conscientes do mesmo. No entanto, o modo de ser desse progresso parecia residir naquela ‘divisão do trabalho’ tão vivamente louvada pelos economistas e tão manifestamente frutífera no campo da produção material. Seria possível a um homem, ou a um grupo de homens, segundo as palavras de Ritter, ‘reunir e organizar, numa bela unidade, tudo quanto sabemos acerca do globo?’ Para muitos, essa tentativa pareceu demasiado ambiciosa, se não quimérica; seria o peso suportado por Atlas, numa versão moderna” (Wooldridge, 1967, p. 21-23. Grifos meus).

O relato que acabamos de ler é sobre uma geografia em estado de arte. Saibam que ela não morreu, continua vivíssima, mas por paradoxal que seja, não ganha atenção e representação nos centros acadêmicos como ocorre, efusivamente, no mercado privado. Estranho, não? Não. Para quem acompanha a intensa ideologização acadêmica nos EUA e Europa de pós-guerra e no Brasil a partir dos anos 70, isto soa muito natural. Mas observem como o autor dos excertos acima se surpreende com a produtividade alcançada e atribui isto, como uma descoberta fosse à divisão de tarefas tão “louvada pelos economistas”, em suas palavras. Para aqueles, como nós, que nos guiamos pelo liberalismo enquanto filosofia e arcabouço teórico-metodológico para muitas de nossas análises, o fenômeno é amplamente conhecido desde Adam Smith. Não por acaso, este foi seu apelido, Geografia Pragmática, ou Teorética,[1] como veio a ser conhecida mais tarde no Brasil. Esta contribuição foi acentuada pelos anglo-saxões, que desenvolveram uma geografia com modelos estatísticos para alocação de recursos e assessoria governamental ao planejamento econômico. Malgrado, como já observamos, foi no seio da própria sociedade americana que o marxismo, chamado de geografia crítica se alastrou para o resto do mundo. E, como não poderia deixar de ser, no chamado Terceiro Mundo “deu como um inço”, campo fértil para doses cavalares de ressentimento político associada a uma imaginação socialista. O impressionante é que, apesar de vivermos em épocas com maior disponibilidade de dados para esclarecimento da realidade, a fé, pois o marxismo não deixa de ser um tipo de fé… Avançou e continua avançando com outras roupagens, seja ambiental, cultural etc., do que se deduz que se tratando de obscurantista, de pouco ou nada adianta um debate racional. Resultante disto, temos mantras como este que, repetidos à exaustão pelos professores marxistas para que se tornem verdades inquestionáveis, sequer tentam sua comprovação empírica ou refutação de teorias opostas:

“A rápida expansão do modo capitalista de produção dá-se a partir do aprofundamento da divisão do trabalho que vai desembocar nas ‘forças produtivas capitalistas’. Ao atingir esta etapa o capital ampliar-se-á ampliando a base de suas próprias contradições estruturais, como a que antepõe as duas classes fundamentais de capitalismo no seio mesmo do processo do trabalho. Assim, o capitalismo precisará crescer para além de suas fronteiras e seus níveis qualitativos.

No plano do processo do trabalho a expansão capitalista traduz-se como elevação constante da composição orgânica do capital, isto é, um aumento em ritmo maior de emprego de máquinas que o ritmo de emprego de operários. Uma vez que a mais-valia é a origem do lucro e que é o operário e não a máquina quem produz mais-valia, tende a haver um declínio contínuo da taxa de lucro. Isto não cocorre em vista de que o próprio processo que gera a tendência produz contratendências. Uma delas é a concentração da produção em caráter monopolista; uma segunda é a fusão dos monopólios industriais e bancários que promove o nascimento do capital financeiro; uma terceira é a exportação de capitais que é ilustrativa a expansão ferroviária em escala mundial; uma quarta é a integração da produção agrícola à industrial que força para baixo a reprodução da força de trabalho (mais-valia relativa) e para cima a taxa da mais-valia; uma quinta é a deterioração da qualidade do produto para acelerar a velocidade das trocas; uma sexta é a expansão do circuito mercantil para a periferia do capitalismo; uma sétima é a socialização, via Estado, das despesas de inversões com capital fixo.

Em suma, o capitalismo passa da fase concorrencial para a fase monopolista, entrando na fase imperialista. Primeiro na fase imperialista de redivisão dos mercados mundiais e, a seguir, na fase do capitalismo monopolista de estado.

Crescendo sobre a periferia o capitalismo internacionaliza-se, reproduzindo em escala mundial a base sobre a qual nasce historicamente: proletarizando o homem, alienando-o da natureza e dos outros homens, do saber e do poder” (Moreira, 1981, p. 102-104. Grifos meus).

A Geografia Crítica, também conhecida por Geocrítica surge em 1970 na França e

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A chamada geocrítica, geografia humana de viés marxista procura dramatizar até mesmo a cartografia, como se as visões tradicionais fossem fruto de uma manipulação histórica. 

rapidamente se espalha para outros países, onde iria despontar no Brasil na década de 80. O que nós acabamos de ler acima é simplesmente marxismo, nada de novo até então, mas o detalhe é que a ciência geográfica, nesta visão, se submete totalmente à metodologia e filosofia marxistas. Dentre as várias críticas que podem ser feitas, ao marxismo mesmo, como sua teoria do valor-trabalho ou o “etapismo histórico” configurado nos parágrafos acima (que desconsidera importantes particularidades regionais), o mais gritante é o que é feito com a geografia mesmo. A riqueza dessa ciência está na avaliação das diversidades, uma vez que se apresenta como um estudo com base na superfície da terra, “ciência dos lugares”, como chamava La Blache. Nesta visão “crítica”, a geografia é apresentada de modo grotescamente simplista, pois todas as regiões e áreas passíveis de avaliação na Terra se submeteriam a esta “lógica do Capital”. Para que isto apresente um mínimo de coerência há que se descartar a presença da história particular de cada nação, povo ou etnia; se descartar o peso institucional e estatal; religiões então, nem pensar, não passam de superestruturas, representações mentais para defender interesses (da “classe dominante”). Algo assim não parece geografia… E não é mesmo. Lembrem-se da bela escrita de Paul Vidal de La Blache dizendo que a Geografia não é a “ciência dos homens”, mas a “ciência dos lugares”, que envolve a humanidade, mas em sua relação com o ambiente. Como fica a análise ambiental na geocrítica? Não existe. Para marxistas genuínos, a 2ª natureza (como Marx chamava as transformações ocorridas nos territórios) suplanta e submete completamente a 1ª natureza (a original, “natureza natural”). Até aí reconhecemos a interferência de um sobre o outro, mas como Marx não pretendia constituir uma especialidade do conhecimento e sim uma “ciência da história” que contivesse um método capaz de abranger qualquer tradição de pensamento, os estudos ambientais desaparecem. Não é preciso dizer que os ambientalistas nunca absorveram esta visão pura do marxismo, mas sim do esquerdismo anticapitalista. Pode se dizer que o marxismo entrou na temática ambiental por vias indiretas, antes pelo ativismo político do que por sua estruturação acadêmica. Ou seja, o pensamento marxista se metamorfoseou, se tornando um “marxismo heterodoxo” e é, justamente, por isto que ele resiste. Se fosse o contrário, uma visão original, muitos não o adotariam porque iriam perceber sua defasagem em relação à realidade, a confrontação das teorias marxistas com a realidade etc., mas o que subsiste com força é o aspecto puramente ideológico, normativo, daquilo que “não aconteceu mas que pode acontecer, afinal, o verdadeiro comunismo nunca existiu de acordo com a teoria marxista…” Quantas e quantas já não ouvimos isto? Mas daí eu vos pergunto, quem lê integral ou parcialmente a obra marxista? Aqueles especialistas que, na sua maioria, já são adeptos ou simpatizantes. Portanto, uma de nossas principais tarefas para extirpar esta chaga é “traduzir”, divulgar o cerne da obra marxista para que, como uma vacina, mostrar aos novos leitores o que realmente lhes manipulará ao repetir clichês e enunciados sem maiores discussões e considerações.

 

(Continua…)

 

Referências:

MOREIRA, Ruy. O que é Geografia. São Paulo : Brasiliense, 1981.

WOOLDRIDGE, S.W.; EAST, W.G. Espírito e Propósitos da Geografia. 2ª Ed. Rio de Janeiro : Zahar Editores, 1967.

[1] Termo este que resultou de uma má tradução do inglês, theoretical, que significa simplesmente teórica.

[i] Confira também a primeira parte deste artigo aqui e, a segunda aqui.

[ii] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.

A Corrupção da Geografia: entre a História e a Natureza[i]

 

 

por Anselmo Heidrich[ii]

 

 

A dita geografia moderna nem sempre foi um “puxadinho marxista”. Enquanto cátedra acadêmica, a partir do século XIX na Alemanha, foi filha do casamento entre história e naturalismo. A geografia deve muito a estudiosos como Karl Ritter e Alexander Von Humboldt, cujos esforços para integrar os campos de conhecimento em que eram especialistas levou a sua afirmação acadêmica. Mais tarde, na virada do século, Friedrich Ratzel enfatizaria a visão que mais tarde chamaríamos de determinismo físico ou geográfico, na qual a natureza mais do que influenciava, mas exercia forte influência no desenvolvimento das sociedades. Embora haja controvérsias sobre qual seria o grau desta influência ou causalidade, seus próprios textos não deixam dúvidas de que enxergava como algo muito além do que costumamos admitir hoje em dia. Prova disto está nesta passagem em que comenta a obra de Montesquieu, o qual:

“(…) afirma, sem muita demonstração, que os climas quentes exercem uma ação depressora e os frios uma ação fortalecedora, e disso deduz que nos primeiros as mulheres se encontram em um nível inferior, os homens são menos corajosos, o povo é mais facilmente excitável, enquanto nos climas frios ocorre o contrário; e isto ele afirma tendo por base observações incompletas, entre as quais recolhemos frases como esta: ‘para excitar a sensibilidade de um moscovita seria necessário arrancar sua pele’. Ele atribui o pouco progresso das legislações orientais à indolência produzida pelo clima e às escassas necessidades a brandura daquelas populações que, sempre por efeito do clima, tomam bebidas excitantes; e, do mesmo modo, explica a proibição do vinho imposta por Maomé. A mais importante entre todas estas considerações é a constatação, renovada mais tarde com maior profundidade por H. Th. Buckle, de que nos países quentes medra o despotismo e nos países frios a liberdade; desse conceito, Montesquieu faz derivar o fundamento natural da escravidão nas regiões tropicais. Os capítulos relativos ao solo começam pela fertilidade, que é o que para ele diferencia as populações da planície daquelas da montanha. Os povos insulares estão, para Montesquieu, mais inclinados à liberdade que os continentais. Entre uma abordagem desse tipo e a de Ritter ou do próprio Herder a distância é grande. Pode-se dizer que, precisamente nessa matéria, nem Montesquieu nem Voltaire formularam ideias que já não tivessem sido expressas pelos antigos e, além disso, não chegaram a criar conceitos melhores que aqueles já conhecidos. Seu mérito, que permanecerá para sempre, foi o de terem promovido o rápido desenvolvimento daqueles conceitos e aplicarem-nos adequadamente, além de terem exercido enorme influencia sobre seus próprios contemporâneos” (Moraes, 1990, p. 36. Grifos meus).

Desta visão, determinista, irá derivar um conceito fundamental em Ratzel, o Espaço Vital – lebensraum – para o qual, uma população e sociedade crescentes demandam a expansão territorial de seu estado. Não precisa ser muito perspicaz para perceber onde isto irá parar, já que estamos falando das primeiras décadas do século XX…[1] A visão de que a natureza mais do que influenciava, mas determinava a vida das pessoas, assim como a necessidade de conquista e expansão territorial para o nascente estado alemão ganhou corpo.

Em contraposição, o francês Paul Vidal de La Blache confrontou este determinismo físico com seu possibilismo: a natureza apresenta condicionantes que abrem possibilidades cabendo aos seres humanos escolher e aproveitar as melhores oportunidades. Vejamos esta inspiradora passagem de seu Princípios de Geografia Humana:

“Uma nova economia da natureza teve tempo para substituir a antiga. O desaparecimento da floresta cedeu lugar ao mato e a mudança das condições de luminosidade desalojou algumas espécies que eram retidas em seu interior, incluindo a temível mosca tsé-tsé, diversa de outras espécies. Em outras regiões são arbustos como os maquis ou o cerrado que sucederam à floresta tendo outras consequências, transformando tanto o ambiente como as condições econômicas. Vislumbramos um novo campo de opções quase ilimitadas para experimentação. Ao estudarmos a ação do Homem sobre a Terra e seu estigma impresso sobre as áreas de ocupação com séculos de idade, a Geografia Humana tem uma dupla finalidade. Não só fazer um balanço das alterações, com ou sem a participação humana, cuja singular redução de espécies ocorre desde o Plioceno. E também desenvolver um conhecimento mais aproximado de toda biosfera, pois examinando as alterações ora em curso se torna possível prever sua evolução. A respeito, o presente e o futuro das ações do Homem, agora um ‘mestre das distâncias’, armado com tudo que a ciência coloca a seu serviço, excede em muito as ações que nossos distantes antepassados puderam exercer. Felicitemo-nos porque a empresa de colonização que nos trouxe a glória permitiu que a imposição de quadros rígidos da Natureza desse margem para obras de restauração ou transformação que estão em poder do Homem” (La Blache, p. 14-15. Tradução e grifos meus)[2].

O que se observa entre os textos de Ratzel e La Blache é que, apesar das diferentes perspectivas e noções de causalidade de transformação e adaptação humanas ao ambiente, ainda há espaço para relativizações e dúvidas concernentes à extensão de seus enunciados científicos. Como quase toda escola, seja acadêmica, religiosa etc., a radicalização se dará com seus sucessores e seguidores. A sutileza e beleza intuitiva dos textos tem relação com uma época onde a ciência (social) procurava se firmar, com mais humildade do que costumamos ver hoje em dia. Mas ambas correntes geográficas, seja a determinista ou a possibilista apresentam um traço comum bastante significativo e, costumeiramente ignorado… Fosse pela fala do alemão ou do francês, eles serviam a seus respectivos estados. E mesmo que não fosse este o motivo deliberado desses estudos, eles acabavam sendo aproveitados com tal finalidade. Não havia como ensejaria um pensamento de boa estirpe liberal, estudos com ênfase no crescimento econômico via trocas internacionais, inter-regionais e em nível escalar mais próximo. O agente máximo de organização e atuação social, ainda é o estado. E por “estado”, leia-se o conceito de estado-nação, por mais idealizada que seja a nação.

determinismo v. possibilismo
Com exceção do último item, que dá impressão de ser uma posição explícita, as características de cada corrente de pensamento geográfica estão bem didáticas.

Fonte da imagem: slideplayer.com.br

Quando se fala em compromisso com a nação é mais do que um ato voluntário. Tratava-se de uma determinação, uma metáfora biológica para uma época em que se substituem explicações oriundas do divino pelo natural. A propósito, vejamos este comentário sobre Ratzel, um dos mais importantes autores e primeiro em sistematizar o conhecimento que viria a ser conhecido como Geografia Política:

“Sua formação inicial não foi a de geógrafo, tendo feito o curso de zoologia em Heidelberg, onde sofreu a influência direta de Haeckel e, através deste, do darwinismo, chegando a publicar alguns artigos de forte conteúdo naturalista-evolucionista.

Ao mesmo tempo, como intelectual preocupado com os destinos da Alemanha, participava de uma série de atividades acadêmicas voltadas para a questão nacional (como a Liga Pangermanista). Após o retorno de sua viagem aos EUA, que muito o impressionou e cuja influência será notória em seus estudos (em 1880 escreveria Os Estados Unidos da América do Norte), Ratzel alterna estudos sistemáticos de geografia geral (como a sua famosa Antropogeografia, de 1882) com vários pequenos estudos sobre problemas geográfico-políticos, culminando com a sua obra maior (Geografia Política, de 1897).

Preocupava-o essencialmente o que avaliara como a ‘unificação malconcluída’ da Alemanha, desde o processo que se iniciara sob o comando de Bismarck, de fato, malgrado a centralização via constituição de um Estado forte, mas que não resultara de um processo revolucionário clássico, tal qual ocorrera na vizinha França, a Alemanha, apresentava-se, até o início deste século, extremamente fragmentada, tanto socialmente como do ponto de vista de sua organização político-territorial.

Como se verá adiante, essa situação repercutirá em muitas das análises de Ratzel sobre o papel que caberia ao Estado nesse processo. Além do mais, assim como a maioria dos geógrafos e ‘homens de Estado’ do país, tinha plena consciência do atraso político e da situação de ‘inferioridade’ da Alemanha em relação às demais potências europeias, em especial à Inglaterra e à França, principalmente na questão das colônias de além-mar.

Um outro problema que marcou profundamente não apenas as concepções gerais de Ratzel e dos geógrafos, mas da maioria dos intelectuais alemães, foi a dos ‘povos alemães’ fora da Alemanha, concentrados principalmente na Europa de Centro e de Leste” (Costa, 1992, p. 29-30).

Mesmo que não houvesse uma defesa explícita do imperialismo, não é difícil imaginar como a argumentação em prol do estado-nação, sobretudo tendo premissas naturalizantes ou biologicistas não pudesse derivar nisso. Esta moda, paradigma, se preferirem não duraria indefinidamente. Com a estabilização das relações internacionais, o que justamente veio a reboque do ignorado comércio e capitalismo mundiais, uma geografia pragmática haveria de nascer.

(Continua…)

 

Referências:

COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica : discursos sobre o território e o poder. São Paulo : HUCITEC : EDUSP, 1992.

ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Friedrich Ratzel: german geographer. Disponível em: <http://global.britannica.com/biography/Friedrich-Ratzel>. Acesso em: 16 jun. 16.

LA BLACHE, Paul Vidal de. Principes de Géographie Humaine. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/>. Acesso em: 16 jun. 16.

MORAES, Antonio C. R. (org.). Ratzel. São Paulo : Editora Ática, 1990.

WIKIPEDIA. Paul Vidal de La Blache. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 16 jun. 16.

 

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http://inter-ceptor.blogspot.com/
Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

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[1] Pode se argumentar que a influência que o Nazismo teve das ideias de Ratzel foi uma “má interpretação” ou deturpação, como queiram, mas o fato é que há um nexo teórico, mesmo que isto não seja suficiente para atribuir à Friedrich Ratzel a pecha de nazista. Influenciar ideologicamente um corpo social não implica em assumir as teorias derivadas por outros interpretes, nem tampouco ter responsabilidade sobre suas ações. Fosse assim, toda ação violenta em nome de uma religião necessitaria ter sua causalidade comprovada em um livro sagrado, o que não é verossímil, pois a cultura, inclusive do campo acadêmico para a esfera política e comportamento de massa é muito dinâmica, para não dizer flexível mesmo.

[2] A referência a esta obra foi extraída do site brasileiro, Domínio Público (<http://www.dominiopublico.gov.br/>), cuja data de edição não é fornecida. Na página brasileira do Wikipedia (<https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 20 mai. 16), a publicação da obra consta sendo de 1922, com edições póstumas.

[i] Leia a primeira parte deste artigo aqui.

[ii] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.