Dávila: aforismos reacionários

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colombia, 18 de maio de 1913 – Bogotá, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo colombiano e um dos críticos mais radicais da modernidade. Alcançou reconhecimento internacional apenas alguns anos antes de seu falecimento, graças às traduções alemãs de algumas de suas obras.

Gómez Dávila passou a maior parte de sua vida entre seu círculo de amigos e os limites de sua biblioteca. Pertenceu à alta sociedade colombiana e se educou em Paris. Devido a uma severa pneumonia, passou cerca de dois anos em sua casa, onde seria educado por professores particulares e desenvolveria sua admiração pela literatura clássica. Entretanto, nunca frequentou uma universidade. Na década de 1930, retornou à Colômbia e nunca voltou a visitar a Europa, exceto por uma estada de seis meses com sua esposa em 1949. Reuniu uma biblioteca pessoal imensa que continha mais de 30.000 volumes (conservada atualmente pela Biblioteca Luis Ángel Arango de Bogotá) em torno dos quais centrou toda sua existência filosófica e literária. Em 1948 ajudou a fundar a Universidad de Los Andes em Bogotá.

Extraordinariamente erudito, profundo conhecedor de línguas clássicas, defendeu uma antropologia cética fundada no estudo profundo de Tucídides e Jacob Burckhardt. Considerava que as estruturas hierárquicas deviam ordenar a sociedade, a Igreja e o Estado. Criticou o conceito de soberania popular e também algumas mudanças introduzidas na Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II, em particular a renúncia à celebração da missa em latim. Igual a Donoso Cortés, Gómez Dávila cria que todos os erros políticos resultavam, em última instância, de erros teológicos. Esta foi a razão pela qual seu pensamento se descreve como uma forma de teologia política.

Católico e de princípios profundos, sua obra é uma crítica aberta a certas expressões da “modernidade”, às ideologias marxistas e algumas manifestações da democracia e do liberalismo, pela decadência e corrupção que abrigam. Seus aforismos (que denominava escolios) estão carregados de uma ironia corrosiva, de inteligência, e de paradoxos profundos.

Deixamos com nossos leitores uma pequena seleção dos seus aforismos, traduzidas livremente pelo autor deste artigo, retirados da sua obra mais conhecida, Escolios a Un Texto Implícito.


Anarquia

  • A anarquia que ameaça uma sociedade que se envilece não é seu castigo, senão seu remédio.
  • Ordem é o que resulta espontaneamente de uma norma. Não o que umas regras impõem.
  • De seu crescente cativeiro só resgatarão a humanidade vários séculos de anarquia.
  • Nenhuma classe social explorou mais descaradamente as outras que a que hoje chama a si mesma “Estado”.

 Arte

  • Uma vocação genuína leva o escritor a escrever só para si mesmo: primeiro por orgulho, depois por humildade.
  • A originalidade não é algo que se busca, senão algo que se encontra.
  • A mais grave acusação contra o mundo moderno é sua arquitetura.

 Conservadorismo

  • A medida que o Estado cresce o indivíduo diminui.
  • Os parlamentos, no Estado moderno, são resquícios feudais que tendem a desaparecer.
  • Onde se pense que o legislador não é onipotente, a herança medieval subsiste.
  • A política sábia é a arte de vigorizar a sociedade e de debilitar o Estado
  • A regra de ouro na política está em não realizar senão mudanças mínimas e fazê-las com a maior lentidão possível
  • A maioria das tarefas que o governante típico deste século se crê obrigado a assumir não são mais que abusos de poder.
  • Sendo a arte do possível, a política carece de interesse em certas épocas.
  • A ciência política é a arte de dosar a quantidade de liberdade que o homem suporta e a quantidade de servidão que necessita.
  • As sociedades não são nem mecanismos, nem organismos, mas estruturas. Podemos, portanto, sustentar a priori que o número de formas sociais corretas é inferior ao de combinações possíveis.
  • A falta de imaginação preserva um povo de muitas catástrofes.
  • Os conservadores atuais não são mais que liberais maltratados pela democracia.
  • Para que a sociedade floresça se requer um Estado fraco e um governo forte.

Comunismo, Marxismo e Socialismo

  • Chama-se comunista quem luta para que o Estado lhe assegure uma existência burguesa.
  • O comunista odeia o capitalismo com o complexo de Édipo. O reacionário apenas o vê com xenofobia.
  • O leitor contemporâneo ri quando o cronista medieval fala de “paladinos romanos”, mas fica sério quando o marxista disserta sobre a “burguesia grega” ou o “feudalismo americano”.
  • A propaganda, na Rússia como na China, seleciona tão intencionalmente os argumentos grosseiros e as falsificações óbvias que é necessário atribuir o triunfo do comunismo ao desdém com que trata a inteligência das multidões.
  • O socialismo deste século não herdou da sociedade burguesa que sepulta senão as deformidades denunciadas pelo socialismo do século passado.
  • O estado socialista cura o proletariado da febre que a doutrina socialista lhe inocula.
  • Um “socialismo com cara humana” é uma aguardente sem álcool.
  • “Social” é o adjetivo que serve de pretexto a todos os engodos.
  • O socialismo é reflexo enantiomorfo da sociedade medieval. Como as hierarquias infernais das hierarquias angélicas.
  • No lugar do paternalismo, o socialismo patrocina a disciplina dos orfanatos.
  • Na estepe rasa o indivíduo não acha abrigo contra a inclemência da natureza, nem na sociedade igualitária contra a inclemência do homem.
  • Para desacreditar os burgueses, Marx, simpaticamente, coloca a serviço do proletariado a noção de “classe social sem interesses particulares” que Voltaire inventou em proveito da burguesia.
  • A verdadeira eloquência estremece o auditório mas não o convence. Sem promessa de butim não há oratória eficaz.

Direito

  • A plétora de leis é indício de que ninguém mais sabe mandar com inteligência. Ou de que ninguém mais sabe obedecer com liberdade.
  • As sociedades moribundas acumulam leis como os moribundos acumulam remédios.
  • Não legislemos para a humanidade. Nem em público, nem em privado.
  • Sem propriedade “injusta” amparada por uma legislação “classista”, ninguém escapa à necessidade de viver em postura servil.
  • O ato de despojar de seus bens a um indivíduo se chama roubo, quando outro indivíduo o despoja. E justiça social, quando uma coletividade inteira o rouba.
  • “Justiça social” é o termo para exigir qualquer coisa que não tenhamos direito.

 Espiritualidade, Religião e Deus

  • O importante não é crer em Deus, senão que Deus exista.
  • Limitemos nossa ambição a praticar contra o mundo moderno uma metódica sabotagem espiritual.
  • Nos séculos espiritualmente desérticos, só se dá conta de que o século está morrendo de sede o que ainda capta águas subterrâneas.
  • Não pertenço a um mundo que perece. Prolongo e transmito uma verdade que não morre.
  • Abundam os que se creem inimigos de Deus e só alcançam ser inimigos do sacristão.
  • Religião e ciência não devem firmar pactos de limites, senão tratados de desconhecimento mútuo.
  • A Igreja deve intervir na política. Mas sem programa político.

 

Esquerda

  • As revoluções da esquerda só mudam a ordem dos naipes. A Revolução é inútil enquanto não se inventem baralhos novos com novos naipes.
  • As idéias de esquerda engendram as revoluções, as revoluções engendram as idéias de direita.
  • O esquerdista inteligente admite que sua geração não construirá a sociedade perfeita, mas confia em uma geração futura. Sua inteligência descobre sua impotência pessoal, mas seu esquerdismo lhe impede descobrir a impotência do homem.
  • A esquerda finge que o culpado do conflito não é o que cobiça os bens alheios, senão o que defende os próprios.
  • Pedir ao Estado o que só a sociedade deve fazer é o erro da esquerda.
  • A falsificação do passado é a maneira como a esquerda tem pretendido elaborar o futuro.
  • A imprensa de esquerda fabrica para a esquerda os grandes homens que a natureza e a história não lhe fabricaram.
  • Erudição e experiência são os adversários invencíveis da esquerda.
  • Os outros me devem o que me prometeram, não o que opino que devam prometer-me. Sobre o cadáver desta obviedade, imolada como vítima sacrificial aos deuses infernais, se levantam os cimentos do pensamento de esquerda.
  • O intelectual de esquerda não ataca com intrepidez nem arrogância senão as idéias que acredita estarem mortas.
  • O mau humor é secreção específica do intelecto de esquerda.
  • A esquerda atual corteja a revolução como um cinquentão caquético a uma secretária.
  • A nova esquerda congrega os que confessam a ineficácia do remédio sem deixar de crer na receita.
  • Sem mãos sujas, para o esquerdista não há consciência limpa.
  • Na “nova esquerda” se recrutará a infantaria da reação.
  • O esquerdismo não é ideologia de uma determinada condição social, senão uma definível deformação mental.
  • Existem hoje duas classes de movimentos subversivos: os que um grupo de especialistas metodicamente promove e os que unanime e espontaneamente estouram. Os primeiros são conspirações de esquerda, os segundos insurreições contra a esquerda.
  • O entusiasmo, nos regimes de esquerda, é um produto sintético elaborado pela polícia.
  • Para escandalizar o esquerdista basta dizer a verdade.
  • O esquerdista evita com tato milagro pisar os calos do poderoso autêntico. O esquerdista só vilipendia os simulacros de poder.

 

Filosofia

  • A dialética é a simulação de um diálogo dentro de um solilóquio.
  • Toda proposição universal é falsa. Menos esta.
  • Nunca é tarde demais para nada verdadeiramente importante.
  • O relativista dificilmente relativiza a si mesmo.
  • O relativismo é a solução do que é incapaz de por as coisas em ordem.
  • As verdades não são relativas. O relativo são as opiniões sobre a verdade.
  • Quem se empenha em refutar argumentos imbecis acaba fazendo-o com raciocínios estúpidos.

Liberalismo

  • Existem duas interpretações do voto popular: uma democrática, outra liberal. Segundo a interpretação democrática é verdade o que a maioria resolve; segundo a interpretação liberal a maioria meramente escolhe uma opinião. Interpretação dogmática e absolutista uma; interpretação cética e discreta, a outra.
  • A discussão do reacionário com o democrata é estéril porque nada têm em comum; por outro lado, a discussão com o liberal pode ser fértil porque compartilham vários postulados.
  • A separação dos poderes é a condição da liberdade.
  • Na sociedade moderna, o capitalismo é a única barreira ao espontâneo totalitarismo do sistema industrial.

 

 

Mundo moderno e Estado moderno

  • No Estado moderno as classes com interesses opostos não são tanto a burguesia e o proletariado como a classe que paga impostos e a classe que deles vive.
  • É difícil simpatizar com o clero moderno desde que se tornou anticlerical.
  • Ideário do homem moderno: comprar o maior número de objetos; fazer ol maior número de viagens; copular o maior número de vezes.
  • Os Evangelhos e o Manifesto comunista palidecem; o futuro do mundo está em poder da coca-cola e da pornografia.
  • O Estado moderno realizará sua essência quando a polícia, como Deus, presencie todos os atos do homem
  • A nova estupidez permite a cada época debochar das estupidezes precedentes.
  • O Estado moderno fabrica as opiniões que recolhe depois respeitosamente com o nome de opinião pública.

 

Outros

  • Respeitar a nossos superiores é antes de mais nada uma prova de bom gosto.
  • Com bom humor e pessimismo não é possível nem errar nem entediar-se.
  • Nenhum ser merece nosso interesse mais de um instante, ou menos de uma vida.

 

Pobreza e Riqueza

  • Aos ricos e aos pobres hoje só diferencia o dinheiro.
  • Já não há classe alta, nem povo; só há plebe pobre e plebe rica.
  • O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.
  • Os pobres, na verdade, só odeiam a riqueza estúpida.
  • Só escapam da veneração ao dinheiro os que escolhem a pobreza, ou os que herdam sua fortuna. A herança é a forma nobre da riqueza.
  • O político democrata se vende sempre. Aos ricos, à vista. Aos pobres, à prazo.
  • Quando os exploradores desaparecem, os explorados se dividem em exploradores e explorados.

 

 Povo e Democracia

  • Em tempos aristocráticos o que tem valor não tem preço; em tempos democráticos o que não tem preço não tem valor.
  • O povo não se rebela nunca contra o despotismo senão contra a má alimentação.
  • O problema da educação dos educadores é problema que o democrata esquece em seu entusiasmo pela educação dos educandos.
  • O povo reivindica a liberdade de ser seu próprio tirano
  • Soberania do povo não significa consenso popular, senão atropelo por uma maioria.
  • Os pecados que escandalizam o público são menos graves que os que ele tolera.
  • Ao democrata não basta que respeitemos o que quer fazer com sua vida, exige também que respeitemos o que quer fazer com a nossa.
  • Um democrata se indigna que suas vítimas se indignem.
  • A porcentagem de eleitores que se abstém de votar mede o grau de liberdade concreta em uma democracia. Onde a liberdade é fictícia, ou onde está ameaçada, a porcentagem tende a zero.
  • Os tribunais democráticos não fazem tremer o culpado, mas o acusado.
  • “Justiça popular” é eufemismo para degola.
  • Os partidos políticos não disputam hoje pelos programas. Ao contrário, disputam os programas.

 

Progressismo

  • O progressista crê que tudo se torna logo obsoleto, salvo suas idéias.
  • O “sentido da história” seria insignificante, se nossa inteligência conseguisse entendê-lo.
  • O progressista se irrita, quando velho, ao ver que a história arquiva o que chamou de progresso quando jovem.
  • O homem é um animal educável, desde que não caia em mãos de pedagogos progressistas
  • Quando se diz que pertence a seu tempo só se está dizendo que coincide com o maior número de idiotas do momento.
  • Ninguém pode escapar de sua época, mas com um pouco de tato pode eludir suas trivialidades.
  • Nada mais perigoso que resolver problemas transitórios com soluções permanentes.
  • Os preconceitos de outras épocas nos são incompreensíveis quando os nossos nos cegam.
  • O progresso é filho do conhecimento da natureza. A fé no progresso é filha da ignorância da história.
  • O clero progressista não decepciona nunca o aficionado ao ridículo.
  • O raciocínio cardeal do progressista é belíssimo: o melhor sempre triunfa, porque se chama melhor ao que triunfa.
  • O clérigo progressista, em tempos revolucionários, acaba morto, mas não como mártir.
  • Saber quais são as reformas que o mundo necessita é o único sintoma inequívoco de estupidez.

 

Reacionários

  • A reação explícita começa no final do século XVIII; mas a reação implícita começa com a expulsão do diabo.
  • Nós reacionários concedemos aos tolos o prazer de sentir-se atrevidos pensadores de vanguarda.
  • Os textos reacionários parecem obsoletos aos contemporâneos e de uma atualidad surpreendente à posteridade.
  • Ao democrata, para refutar os argumentos do reacionário, só lhe ocorre dizer que são argumentos de reacionário.
  • O marxista não duvida da perversidade do seu adversário. O reacionário meramente suspeita que o seu seja estúpido.
  • O socialista não entende que os que prevêm o triunfo do socialismo são reacionários. Quando precisamente o são porque o prevêm.
  • Só um talento evidente faz com que perdoem as idéias de um reacionário, enquanto que as idéias do esquerdista fazem com que o perdoem por sua falta de talento.
  • O reacionário não se torna conservador senão nas épocas que guardam algo digno de ser conservado.
  • Tratar o inferior com respeito e carinho é a síndrome clássica da psicose reacionária.
  • Não é uma restauração o que o reacionário espera, senão um novo milagre.
  • O pensamento reacionário não é reação de medo, é reação ante o crime.
  • Os reacionários se recrutam entre os espectadores de primeira fila de uma revolução.
  • A emigração é o último recurso do reacionário. O último recurso do democrata é o terror.
  • O reacionário não condena a mentalidade burguesa, senão seu predomínio. O que nós reacionários deploramos é a absorção da aristocracia e do povo pela burguesia.
  • Ao esquerdista que proteste igualmente contra crimes de direita ou de esquerda, seus camaradas, com razão, lhe dizem reacionário.

 

Revolução

  • As revoluções não são filhas de pobres invejosos ou famélicos senão de ricos pusilânimes ou ambiciosos.
  • A justiça imanente postula que só um revolucionário fuzile a outro.
  • As burocracias não sucedem casualmente as revoluções. As revoluções são os partos sangrentos das burocracias.
  • A agitação revolucionária é endemia urbana e só epidemia camponesa.
  • O revolucionário quer mudar de baralho, contrarrevolucionário, de jogo.
  • Toda revolução agrava os males contra os quais eclode.
  • A estupidez é o combustível da revolução.
  • O revolucionário é, depois de tudo, um indivíduo que não se atreve a roubar sozinho.
  • A rebelião é reação contra uma condição intolerável; a revolução é técnica de um projeto burguês.
  • A falta de vergonha com que o revolucionário mata espanta mais que suas matanças.
  • A revolução absoluta é o tema predileto dos que nem sequer se atrevem a protestar quando os pisam.
  • As revoluções tem por função destruir as ilusões que as causam.
  • A estupidez é a mãe das atrocidades revolucionárias. A ferocidade é só a madrinha.

 

Sabedoria, Inteligência e Maturidade

  • A sabedoria consiste em resignar-se ao único possível sem proclamá-lo o único necessário.
  • Ser jovem é temer que nos creiam estúpidos; amadurecer é temer sê-lo.
  • Amadurecer não consiste em renunciar a nossos desejos, senão em admitir que o mundo não está obrigado a realizá-los.
  • Quem tenha curiosidade de medir sua estupidez, que conte o número de coisas que lhe parecem óbvias.
  • Exigir à inteligência que se abstenha de julgar lhe mutila sua faculdade de compreender.
  • A maturidade do espírito começa quando deixamos de sentir-nos encarregados do mundo.

Totalitarismo

  • O Estado é totalitário por essência. O despotismo total é a forma à qual espontaneamente tende.
  • Totalitarismo é a fusão sinistra de religião e estado.
  • A unanimidade, em uma sociedade sem classes, não resulta da ausência de classes, mas da presença da polícia.

Como Ser um Conservador Anti-Socialista Não-Liberal

Por Roger Scruton. Publicado originalmente em inglês no The Imaginative Conservative. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui.

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Os intelectuais do pós-guerra herdaram dois grandes sistemas de pensamento político com os quais satisfizeram seu desejo doutrinário: liberalismo e socialismo. É uma prova da persistência da mentalidade dicotomizadora que, mesmo no Leste Europeu, o “conflito mundial” que durou setenta anos era frenquentemente entendido nestes termos, como uma oposição entre estes sistemas. E porque eles são sistemas, assume-se que eles são organicamente unificados, que você não pode adotar qualquer parte deles sem aceitar o todo. Mas deixemos bem claro desde o início, partindo da nossa atual conjuntura, nada é mais óbvio sobre estes dois sistemas que o fato de que eles são, em seus pressupostos, substancialmente a mesma coisa. Ambos propõem uma descrição de nossa condição e uma solução ideal para ela, em termos que são seculares, abstratos, universais e igualitários. Ambos vêem o mundo em termos “dessacralizados”, em termos que, na verdade, não correspondem à qualquer experiência humana comum e duradoura mas somente aos frios e minguados paradigmas que assombram os cérebros dos intelectuais. Ambas são abstratas, mesmo quando se pretendem uma visão da história humana. Sua história, como a sua filosofia, é alienada da circunstância concreta da agência human e, de fato, no caso do marxismo, chega ao ponto de negar a eficácia da agência humana, preferindo ver o mundo como uma confluência de forças impessoais. As idéias pelas quais os homens vivem e encontram sua identidade local – idéias de lealdade, de país ou nação, de religião e dever – todas estas idéias são para o socialista mera ideologia, e para o liberal, questões de escolha “privada”, a ser respeitadas pelo Estado somente porque realmente não importam ao Estado. Somente em alguns poucos lugares da Europa e da América uma pessoa pode dizer-se conservadora e esperar ser levada a sério. A primeira tarefa do conservadorismo é, portanto, criar uma linguagem onde “conservador” deixe de ser um um termo pejorativo. Esta tarefa é parte de um outro esforço, maior: o de purificar a língua da “sloganização” perminiciosa que tem se apoderado dela. Não será um empreendimento fácil. De certo modo isto é tudo o que a política é. Como os comunistas descobriram desde o princípio, controlar a linguagem é controlar o pensamento – não o pensamento de verdade, mas as possibilidades de pensamento. É em parte devido aos bem-sucedidos esforços dos comunistas – ajudados, é claro, por uma guerra mundial que eles ajudaram a precipar – que nossos pais pensavam em termos de dicotomias rudimentares. Esquerda-direita, socialista-capitalista, e assim por diante. Tais eram os “temas de debate” que herdamos, a tal ponto que não ser “de esquerda” implicava que você era “de direita”; e, se não um comunista, então muito mais próximo do fascismo; se não um socialista, então um defensor do “capitalismo” como sistema econômico e político.

Se há uma dicotomia básica que enfrentamos hoje, é entre nós – os herdeiros do que sobrou da civilização ocidental e seu pensamento político – e os vendedores de dicotomias. Não existe a tal oposição entre esquerda e direita, ou entre comunismo e fascismo. Há simplesmente uma eterna aliança – ainda que uma “aliança dos injustos” que está sempre prestes a violar os acordos pelos quais se forma – entre aqueles que pensam em termos de dicotomias e rótulos. A eles pertence o novo estilo da política, a ciência que efetivamente substituiu “a política” tal e como esta sempre foi. A eles pertence o mundo das “forças” e “movimentos”; o mundo percebido por estas mentes infantis é um mundo em estado constante de agitação e conflito, avançando ora à esquerda, ora à direita, conforme as previsões precipitadas deste ou daquele teórico do destino social do homem. Acima de tudo, a mentalidade dicotomizadora necessita de um sistema. Ela busca um fundamento teórico da condição social e política do homem, do qual possa extrair a doutrina que responderá a todas as circunstâncias materiais.

Ambos os sistemas também são universais. Um socialismo internacional é o ideal declarado pela maioria dos socialistas; e um liberalismo internacional é a tendência implícita do liberal. A nenhum dos sistemas parece inteligível que os homens vivam não para aspirações universais, mas para sentimentos de pertencimento local; não por uma “solidariedade” que envola o mundo todo de ponta à ponta, mas por obrigações entendidas em termos que separam os homens da maioria dos seus vizinhos—termos como história nacional, religião, língua, e os costumes que fornecem a base da legitimidade. Finalmente – e a importância disto nunca deve ser subestimada – tanto socialismo como liberalismo são, em última análise, igualitários. Ambos partem do princípio que todos os homens são iguais em todos os aspectos relevantes para a política. Para o socialista, os homens são iguais em suas necessidades, e portanto devem ser iguais em tudo que concerne a satisfação das suas necessidades. Para o liberal, eles são iguais em direitos, e portanto devem ser iguais em tudo que afete sua posição política e social.

Devo dizer que eu tenho mais simpatia pelo liberal do que pela posição socialista. Pois ele se baseia em uma filosofia que não só respeita a realidade da ação humana, mas também tenta conciliar a nossa existência política com as liberdades elementares que são constantemente ameaçadas. Mas – qualquer que seja o seu valor como um sistema filosófico, o liberalismo continua sendo, para mim, não mais do que isso – um corretivo constante para uma dada realidade, mas não a realidade em si. É uma sombra, lançada pela luz da razão, cuja existência depende do corpo maciço que obstrui a luz, o corpo da existência política do homem.

A existência política do homem desafia os quatro axiomas do liberalismo e do socialismo. Não é secular, mas espiritual, não abstrato, mas concreto, não universal, mas particular, e não igualitária, mas repleta de diversidade, desigualdade, privilégio e poder. E assim deve ser. Eu digo que é espiritual, pois acredito que o mundo como o homem entende – o Lebenswelt – lhe é dado em termos que levam a marca permanente de obrigações que ultrapassam o seu entendimento. Ele nasce em um mundo que exige dele o sacrifício, e que lhe promete recompensas obscuras. Este mundo é concreto, não pode ser descrito numa língua abstrata do teórico socialista ou liberal sem remover a pele de significância que o torna perceptível. O mundo do socialista e o mundo do liberal são como esqueletos mortos, dos quais a pele viva foi removida. Mas este mundo real, o viver, o mundo social, é uma particularidade, uma coisa vital, e deve, para florescer, distribuir diferentemente e desigualmente sua vida sobre as suas partes. A igualdade abstrata do socialista e do liberal não tem lugar neste mundo, e pode ser realizada apenas pela afirmação de controles tão grandes a ponto de destruir a si mesmos.

A fim de justificar, e de fato ganhar a sua guerra com a realidade, a mente intelectual desenvolveu uma linguagem aniquiladora que usa para descrevê-la. Todas as realidades políticas são descritas fora da história, como se fosse possível ser estabelecida em qualquer lugar, a qualquer momento. Assim, o fenômeno particular polonês da “Solidariedade” é empurrado para as formas abstratas ditadas pela teoria da “democracia liberal”. Ele é visto até mesmo como uma espécie de socialismo, especialmente por intelectuais franceses para os quais não há nada bom que não possa ser chamado de socialista. O exemplo é ameaçador. Se quisermos voltar à realidade, devemos procurar uma linguagem que é escrupulosa em relação ao mundo humano.

Uma generalidade, no entanto, é útil para nós, justamente porque, por trás dela, milhares de particularidades se encontram escondidas. Refiro-me à ideia de legitimidade. Para seu imenso crédito, os liberais tentaram dar uma ideia alternativa de legitimidade – com a qual desafiam os direitos históricos que deveriam ser extintos pelo triunfo de seu sistema. A primeira, e última, condenação do comunismo desmentiu a ideia de legitimidade com uma gargalhada cavernosa. Não é a minha preocupação argumentar com o liberal, cujas idéias devem, eventualmente, ser incorporados em qualquer teoria filosófica de governo legítimo. Eu gostaria apenas de sugerir uma alternativa não-liberal, livre do contágio da teoria.

Entre as várias dicotomias que têm pulverizado a inteligência moderna – suponho que devido a Weber – aquelas entre a legitimidade e a legalidade, entre os modos de autoridade “tradicional” e “racional-legal”, tem sido a dicotomia mais prejudicial. Somente se a lei é mal-interpretada, como um sistema de abstrações, a legalidade pode ser considerada uma alternativa à – em vez de uma uma realização particular da – legitimidade. Mas a lei abstrata, por esse motivo, não possui uma força duradoura.

Legitimidade é, simplesmente, o direito ao comando político. E este direito inclui o exercício da lei. O que confere este direito sobre um povo? Alguns diriam que a sua “escolha”. Mas essa ideia ignora o fato de que temos apenas os instrumentos mais rudimentares pelo qual as escolhas são medidas, e essas escolhas dizem respeito apenas à mais fortuita das coisas. Além disso, o que leva as pessoas a aceitarem a “escolha” que é imposta a eles por seus companheiros, se não um sentimento prévio que eles estão unidos em uma ordem legítima?

A tarefa para o conservador é encontrar os fundamentos da existência política concreta, e trabalhar para o restabelecimento de um governo legítimo em um mundo que foi varrido e desprotegido por abstrações intelectuais. Nosso modelo final para um fim legítimo é aquele que é dado historicamente, para as pessoas unidas por seu senso de um destino comum, uma cultura comum e uma fonte comum dos valores que regem suas vidas.

A intelligentsia liberal no Ocidente, como a antiga intelligentsia comunista no Oriente, persistentemente se recusou a aceitar a naturalidade da existência humana. El tornou a vida, e em particular a vida política, em uma espécie de experiência intelectual. Vendo a infelicidade do homem, ela se pergunta – o que deu errado? Sonha com um mundo em que um ideal abstrato de justiça se tornará realidade. Procura, em todos os lugares, uma única solução que irá resolver os conflitos e restaurar a harmonia em todos os lugares, seja no Pólo Norte ou no Equador. Por isso, a total incapacidade do liberalismo para fornecer uma solução para aqueles que estão aflitos por uma ilegitimidade totalitária. O liberal começa a partir do mesmo pressuposto do totalitário, ou seja, que a política é um meio para um fim, e o fim é a igualdade – não uma igualdade material, mas a igualdade moral, uma igualdade de “direitos”. A democracia é o resultado necessário deste ideal liberal, uma vez que a democracia é a realização final da igualdade política. Para o liberal, a única forma de se opor ao totalitarismo é através da lenta e constante democratização da ordem social.

Quem pode duvidar do apelo dessa ideia? Mas esta negligencia um fato inescapável. Eu não consigo ver a minha vida como os liberais desejam ver a vida política. Eu não consigo ver a minha vida como um experimento. Nem posso considerar minhas obrigações como sendo inteiramente criações da minha liberdade, de ações responsáveis. Eu nasci em uma situação que eu não criei, e estou sobrecarregado desde o nascimento com as obrigações que não são de minha própria concepção. Minha dívida básica para o mundo não é de justiça, mas de piedade, e é só quando eu reconhecer esse fato que eu posso ser verdadeiramente eu. Apenas em relação a minha dada situação é que posso formar esses valores e pretensões sociais que me dão forças, e assim, por fim, experimentar a liberdade.

Qualquer avaliação genuína do nosso sentimento de legitimidade deve começar com o reconhecimento de que a piedade precede a justiça, tanto em nossas vidas, quanto em nosso pensamento, e que, até que tenhamos nos associado um lugar e a um povo, e comecemos a pensá-los como “nossos”, as exigência de justiça, a superstição da igualdade, são inteiramente sem sentido para nós. Mas esse apego ao lugar e as pessoas não é escolhido: não é o resultado de uma reflexão liberal sobre os direitos do homem, nem é concebido no espírito experimental que é tão importante para o programa socialista. Nascemos para as obrigações da família, e na experiência de nós mesmos como partes de um todo maior. Não reconhecer a prioridade desta experiência é admitir a premissa maior do pensamento totalitário, que afirma que a existência política nada mais é que um experimento de longo prazo. Há uma visão particular, ainda popular entre os intelectuais de esquerda no Ocidente, que o sistema soviético era um “socialismo errado.” Esse pensamento expressa precisamente o grande perigo político de nosso tempo, que é a crença de que a política envolve uma escolha de sistemas, como um meio para um fim, de modo que um sistema pode “dar errado”, enquanto outro “dar certo.” A verdade é que o socialismo é errado, justamente porque acredita que ele pode dar certo – justamente porque ele vê a política como um meio para um fim. A política é uma forma de existência social, cujo fundamento é as obrigações dadas a partir do qual nossas identidades sociais são formadas. A política é uma forma de associação que não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo. É fundada na legitimidade, e legitimidade reside em nosso senso de que somos feitos por nossa herança.

Assim, se quisermos redescobrir as raízes de ordem política, devemos tentar endossar as obrigações não escolhidas que nos conferem nossa identidade política, e que estabelecem para um polonês que ele  não pode ser governado de Moscou, ou para um habitante das Ilhas Malvinas que ele não pode ser legitimamente governado a partir de Buenos Aires.

Vale a pena fazer uma pausa para mencionar outra generalidade, rival, que tem sido de algum serviço para o intelectual de esquerda liberal no nosso tempo, em seu esforço de acabar com o passado e encontrar uma base política obrigatória que olha apenas para o presente e para o futuro. É a ideia do “povo” como uma fonte de ordem legítima. A ideia é normalmente combinada com a fantasia de que o intelectual tem alguma faculdade peculiar de ouvir, e também articular, a “voz do povo.” Esta auto-ilusão, que persistiu inalterada desde os tempos da Revolução Francesa, expressa a preocupação do intelectual de se reunir com a ordem social de que seu próprio pensamento foi tão tragicamente separado.

Ele deseja se redimir de sua “externalidade”. Infelizmente, entretanto, ele consegue unir-se não com a sociedade, mas só com outras abstrações intelectuais – “o povo” – projetadas de acordo com exigências teóricas impecáveis, precisamente para ocultar a intolerabilidade da realidade da vida cotidiana. “O povo” não existe. Mesmo se existisse, seria autoridade para nada, uma vez que não teria nenhuma base concreta sobre a qual construir a sua legitimidade. Ninguém pode falar para o povo. A verdade, no entanto, se esforça para ser dita, e pode encontrar expressão, ora nesses lábios, ora naqueles.

Ao contrário do “povo”, a nação não é uma abstração. É um dado da realidade histórica. É construído em particular e imediato numa linguagem, costume, religião e cultura. Ela contém em si a sugestão de uma ordem legítima. Isto, creio eu, deve ser sempre lembrado, mesmo por aqueles – e isso inclui a maioria de nós agora – que hesitam em adotar o nacionalismo objetivo que surgiu a partir do Congresso de Viena e que a princípio pacificou, mas, posteriormente, destruiu, o nosso continente.

Mas, certamente, você vai dizer, não há outra fonte de legitimidade, que não requeira o apoio dessas obrigações piedosas que parecem nos comprometer com tanto na base de tão pouco? Não há uma legitimidade a ser encontrada na democracia, que um dia substituirá o apelo à piedade?

Essa é uma grande questão. Mas duas coisas precisam ser ditas em resposta. Em primeiro lugar, a “democracia” é um termo disputado, e ninguém sabe bem o que isso significa ou como garantir sua estabilidade. Devemos esperar até que todos os paradoxos da escolha social tenham sido resolvidos antes de formular nossos compromissos políticos?

Em segundo lugar, o que as pessoas têm apreciado na democracia não é uma escolha coletiva periódica. O que há de tão estimável no fato de que uma maioria ignorante de vez em quando escolha ser orientada por um novo partido, em direção a objetivos que não entendem melhor do que entendiam os objetivos do partido anterior? O que é apreciado são certas virtudes políticas que associamos justamente com a democracia britânica e americana, mas que já existia antes da democracia, e poderia ser estabelecida em outro lugar sem a sua ajuda. Estas virtudes são as seguintes:
(I) O poder limitado: ninguém pode exercer o poder ilimitado quando seus projetos estão para ser extintos por uma eleição.
(II) O governo constitucional: mas o que defende a Constituição?
(III) Justificação por consentimento.
(IV) A existência de instituições autônomas, e as associações livres que as fazem possíveis.
(V) Estado de Direito: em outras palavras, a possibilidade de adjudicar cada ato, mesmo quando ato de um oficial – mesmo quando o ato é em nome do poder soberano.
(VI) A oposição legítima: em outras palavras, o direito de formar partidos e publicar opiniões que se opõem ao governo, e o direito de lutar abertamente pelo poder.

Teóricos políticos estão familiarizados, é claro, com esses assuntos, e este não é o lugar para discuti-los em detalhes. Mas vale a pena resumir sua importância. Tomadas em conjunto, essas seis características do governo, dizem respeito não à democracia, mas à limitação constitucional. Dizendo de forma mais direta, elas denotam a separação do Estado (que é o lugar de autoridade legítima) daqueles que detêm o poder em virtude do Estado. Aqueles que exercem o poder podem ser julgados em termos das próprias funções de que sejam titulares. Esta é certamente parte essencial da verdadeira ordem política. É também uma parte indispensável de qualquer legitimidade bem elaborada. De fato, podemos ver a legitimidade do Estado Moderno como composta de duas partes: uma raíz, que é o apego devoto que atrai as pessoas a uma única entidade política, e uma árvore que cresce a partir dessa raíz, que é o estado soberano, ordenado pelos princípios que recomendei. Neste estado, o poder é submetido a condições limitantes, e de uma maneira que o torna responsável por aqueles que podem sofrer por seu exercício. Este estado mostra o verdadeiro florescimento de uma “sociedade civil” – uma vida pública que seja aberta, digna, e imbuída com uma legitimidade instintiva. Tal legalidade cresce e exprime a legitimidade que é armazenada em sua raíz. Esta é a parte superior, a parte visível da legítima polis que é tão evidentemente destruída pelas doutrinas políticas de nossos tempos. Mas a sua destruição se torna possível, não tanto pela eliminação da democracia, mas pelo sufocamento do sentimento legítimo do qual se alimenta.

A democracia pode, é claro, sustentar as seis virtudes políticas que eu listei. Mas também pode destruí-las. Todas dependem de uma coisa que a democracia não pode fornecer, e que é insinuada na questão que eu adicionei para o número (II): autoridade. O que leva as pessoas a aceitar e se comprometer com os resultados de uma eleição democrática, ou pela lei existente, ou pelas limitações incorporadas em um gabinete? O que, em suma, dá origem ao “espírito público” que notavelmente desapareceu das instituições do governo em grande parte da Europa moderna? Certamente é o respeito – às instituições, aos procedimentos, aos poderes e privilégios efetivamente apreciados. Esse respeito é derivado da sensação de que estes poderes, privilégios e procedimentos refletem algo que é verdadeiramente “nosso”, algo que cresce a partir do vínculo social que define a nossa condição. Aqui reside a autoridade do real: a que ele demonstra conter em si o resíduo da fidelidade que define o meu lugar.

Agora, o que é a verdadeira legalidade? Eu já sugeri a distinção entre a lei abstrata e a lei concreta, e eu impliquei que só a lei concreta pode realmente preencher o vácuo de legitimidade que atualmente encontra-se diante de nós. A lei concreta é exemplificada no seu melhor na tradição inglesa da lei costumeira – leis criadas por juízes em resposta aos problemas concretos que surgem diante deles, e em que os princípios emergem lentamente, e já se tornam sujeitos a severa disciplina do real. Qualquer lei que é o resultado do raciocínio judicial sério, fundada em precedentes e autoridades, tem a marca de uma ordem histórica; também continua a responder à realidade dos conflitos humanos e constitui uma tentativa genuína para resolvê-los, ao invés de ditar uma solução intelectualmente satisfatória o que pode ser inaceitável para as partes. Esse tipo de lei incorpora a verdadeira fonte de autoridade legal, que é convicção da autor de que a justiça será feita, não abstratamente, mas de acordo com seu caso particular, tendo em conta as circunstâncias específicas que são dele, e que são, talvez, até mesmo exclusivas dele. Para a lei concreta existir, de qualquer forma, deve haver uma independência judicial. E uma vez que existe a independência judicial haverá o que todos razoavelmente aspiravam sob a bandeira dos “direitos do homem”. Pois existirá a garantia de que a justiça possa ser feita, seja qual for o poder que pretende extingui-la.

Existem duas grandes ameaças lei concreta. Uma delas é a abolição da independência judicial. Isto foi conseguido pelo Partido Comunista, em prol de uma justiça “abstrata” – uma “igualdade” de recompensa – que inevitavelmente entra em conflito com as circunstâncias concretas da existência humana. A segunda ameaça é a proliferação da lei de estatuto – de lei por decreto, a lei repetidamente feita e re-feita em resposta às idéias mal feitas dos políticos e seus assessores. Toda essa lei é fatalmente defeituosa: o Partido Comunista repousava toda a sua pretensão de legalidade na geração de tais leis, ao remover o único instrumento – a independência judicial – que poderia transformá-las em verdadeiras leis, ao invés de liminares militares.

O liberalismo sempre valorizou a importância da legalidade. Mas legalidade liberal é uma legalidade abstrata, preocupada com a promoção de uma ideia puramente filosófica de “direitos humanos”. Quais valores são direitos humanos, sem o processo judicial que irá defendê-los? E além disso, ao deixar na mão de alguém esta fé abstrata e sedutora, não estamos dando a um inimigo o bastião contra o reconhecimento de sua ilegitimidade? Não existe a possibilidade de ele dizer que respeita os direitos humanos – mas direitos diferentes? (O direito de trabalhar, por exemplo, ou o direito de uma participação nos meios de produção.) Se olharmos de volta para a Revolução Francesa, vê-se o quão fácil é para a doutrina dos “direitos humanos” se tornar um instrumento da tirania mais terrível. Basta fazer como os jacobinos fizeram a abolir o sistema judicial e substituí-lo por “tribunais populares”. Então qualquer coisa pode ser feita para qualquer um, em nome dos Direitos do Homem.

Em resposta ao liberalismo, portanto, é necessário trabalhar para a restauração das circunstâncias concretas da justiça. Mas a lei concreta que eu tenho defendido é muito diferente de qualquer coisa que tanto um socialista ou um liberal aprovaria. Ela preserva as desigualdades, confere privilégios, justifica o poder. E, no entanto, é isso a sua força. Para sempre haverá desigualdades: haverá sempre o privilégio e o poder. Esses não são nada, mas sim os traços de uma ordem política real. Desde que as igualdades, privilégios e poderem exista, é certo que elas devam coexistir com uma lei que possa justificá-las. Caso contrário, elas serão injustas e também descontroladas.


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Artista tcheco manda cumprimentos aos comunistas

David Černý é um artista tcheco conhecido pela sua rebeldia. Seu meio favorito de expressão é a escultura, e frequentemente opta por atacar nacionalistas e comunistas em suas intervenções. Algumas das suas obras são memoriais: sua obra Quo Vadis evoca as tentativas de fuga dos alemães orientais para a Alemanha Ocidental através da República Tcheca, representadas na obra como um Trabant (carro típico da Alemanha Oriental socialista) com pernas humanas.

Uma obra que lhe rendeu até prisão foi pintar de rosa um monumento nacional da República Tcheca: um tanque soviético que simbolizava a expulsão dos nazistas pelos soviéticos, mas que se tornou um símbolo de poder do governo comunista não menos totalitário que por décadas submeteu o país. A intervenção artística tornou o “monumento” até mais agradável:

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Mas agora nosso amado artista foi, digamos, um pouco menos sutil. Ele decidiu mandar seus cumprimentos ao governo tcheco e ao Partido Comunista instalando uma belíssima escultura sobre uma plataforma no rio Vltava bem em frente ao Castelo de Praga, a residência presidencial. O motivo, especula-se, sejam as próximas eleições onde se prevê uma participação social-democrata com apoio do Partido Comunista, que não tem participação política significante no país desde a Revolução de Veludo que derrubou o comunismo tcheco.

Vejam que maravilha:
Cerny Middlefinger

Marxismo: a máquina assassina

Por R. J. Rummel. Versão em português extraída do site do Instituto Mises Brasil. Para ler o artigo original, clique aqui.

Com a queda da União Soviética e dos governos comunistas do Leste Europeu, muitas pessoas passaram a crer que o marxismo, a religião do comunismo, está morto.  Ledo engano.  O marxismo está vivo e vigoroso ainda em muitos países, como Coréia do Norte, Cuba, Vietnã, Laos, em vários países africanos e, principalmente, na mente de muitos líderes políticos da América do Sul.

No entanto, de extrema importância para o futuro da humanidade é o fato de que o comunismo ainda segue poluindo o pensamento e as ideias de uma vasta multidão de acadêmicos e intelectuais do Ocidente.

De todas as religiões, seculares ou não, o marxismo é de longe a mais sangrenta — muito mais sangrenta do que a Inquisição Católica, do que as várias cruzadas e do que a Guerra dos Trinta Anos entre católicos e protestantes. Na prática, o marxismo foi sinônimo de terrorismo sanguinário, de expurgos seguidos de morte, de campos de prisioneiros e de trabalhos forçados, de deportações, de inanição dantesca, de execuções extrajudiciais, de julgamentos “teatrais”, e de genocídio e assassinatos em massa.

No total, os regimes marxistas assassinaram aproximadamente 110 milhões de pessoas de 1917 a 1987.  Para se ter uma perspectiva deste número de vidas humanas exterminadas, vale observar que todas as guerras domésticas e estrangeiras durante o século XX mataram aproximadamente 35 milhões de pessoas.   Ou seja, quando marxistas controlam estados, o marxismo é mais letal do que todas as guerras do século XX combinadas, inclusive a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e as Guerras da Coréia e do Vietnã.

E o que o marxismo, o maior de todos os experimentos sociais humanos, realizou para seus cidadãos pobres à custa deste sangrento número de vidas humanas? Nada de positivo.  Ele deixou em seu rastro apenas desastres econômicos, ambientais, sociais e culturais.

O Khmer Vermelho — comunistas cambojanos que governaram o Camboja por quatro anos — fornece algumas constatações quanto ao motivo de os marxistas acreditarem ser necessário e moralmente correto massacrar vários de seus semelhantes.  O marxismo deles estava em conjunção com o poder absoluto.  Eles acreditavam, sem nenhuma hesitação, que eles e apenas eles sabiam a verdade; que eles de fato construiriam a plena felicidade humana e o mais completo bem-estar social; e que, para alcançar essa utopia, eles tinham impiedosamente de demolir a velha ordem feudal ou capitalista, bem como a cultura budista, para então reconstruir uma sociedade totalmente comunista.

Nada deveria se interpor a esta realização humanitária.  O governo — o Partido Comunista — estava acima das leis. Todas as outras instituições, normas culturais, tradições e sentimentos eram descartáveis.

Os marxistas viam a construção dessa utopia como uma guerra contra a pobreza, contra a exploração, contra o imperialismo e contra a desigualdade — e, como em uma guerra real, não-combatentes também sofreriam baixas. Haveria um necessariamente alto número de perdas humanas entre os inimigos: o clero, a burguesia, os capitalistas, os “sabotadores”, os intelectuais, os contra-revolucionários, os direitistas, os tiranos, os ricos e os proprietários de terras.  Assim como em uma guerra, milhões poderiam morrer, mas essas mortes seriam justificadas pelos fins, como na derrota de Hitler na Segunda Guerra Mundial.  Para os marxistas no governo, o objetivo de uma utopia comunista era suficiente para justificar todas as mortes.

A ironia é que, na prática, mesmo após décadas de controle total, o marxismo não apenas não melhorou a situação do cidadão comum, como tornou as condições de vida piores do que antes da revolução.  Não é por acaso que as maiores fomes do mundo aconteceram dentro da União Soviética (aproximadamente 5 milhões de mortos entre 1921-23 e 7 milhões de 1932-33, inclusive 2 milhões fora da Ucrânia) e da China (aproximadamente 30 milhões de mortos em 1959-61).  No total, no século XX, quase 55 milhões de pessoas morreram em vários surtos de inanição e epidemias provocadas por marxistas — dentre estas, mais de 10 milhões foram intencionalmente esfaimadas até a morte, e o resto morreu como consequência não-premeditada da coletivização e das políticas agrícolas marxistas.

O que é espantoso é que esse histórico fúnebre do marxismo não envolve milhares ou mesmo centenas de milhares, mas milhões de mortes.  Tal cifra é praticamente incompreensível — é como se a população inteira do Leste Europeu fosse aniquilada.  O fato de que mais 35 milhões de pessoas fugiram de países marxistas como refugiados representa um inquestionável voto contra as pretensões da utopia marxista.  [Tal número equivale a todo mundo fugindo do estado de São Paulo, esvaziando-o de todos os seres humanos.]

Há uma lição supremamente importante para a vida humana e para o bem-estar da humanidade que deve ser aprendida com este horrendo sacrifício oferecido no altar de uma ideologia: ninguém jamais deve usufruir de poderes ilimitados.

Quanto mais poder um governo usufrui para impor as convicções de uma elite ideológica ou religiosa, ou para decretar os caprichos de um ditador, maior a probabilidade de que vidas humanas sejam sacrificadas e que o bem-estar de toda a humanidade seja destruído.  À medida que o poder do governo vai se tornando cada vez mais irrestrito e alcança todos os cantos da sociedade e de sua cultura, maior a probabilidade de que esse poder exterminará seus próprios cidadãos.

À medida que uma elite governante adquire o poder de fazer tudo o que quiser, seja para satisfazer suas próprias vontades pessoais ou, como é o caso dos marxistas de hoje, para implantar aquilo que acredita ser certo e verdadeiro, ela poderá impor seus desejos sem se importar com os custos em vidas humanas.  O poder é a condição necessária para os assassinatos em massa.  Quando uma elite obtém autoridade plena, várias causas e condições poderão se combinar para produzir o genocídio, o terrorismo, os massacres ou quaisquer assassinatos que os membros dessa elite sintam serem necessários.  No entanto, o que tem de estar claro é que é o poder — irrestrito, ilimitado e desenfreado — o verdadeiro assassino.

Nossos acadêmicos e intelectuais marxistas da atualidade usufruem um passe livre.  Eles não devem explicações a ninguém e não são questionados por sua defesa de uma ideologia homicida.  Eles gozam de um certo respeito porque estão continuamente falando sobre melhorar as condições de vida dos pobres e dos trabalhadores, suas pretensões utópicas.  Porém, sempre que adquiriu poder, o marxismo fracassou miserável e horrendamente, assim como o fascismo.  Portanto, em vez de serem tratados com respeito e tolerância, marxistas deveriam ser tratados como indivíduos que desejam criar uma pestilência mortal sobre todos nós.

Da próxima vez que você se deparar com marxistas ou com seus quase equivalentes, os fanáticos esquerdistas, pergunte como eles conseguem justificar o assassinato dos mais de cento e dez milhões de seres humanos que sua fé absolutista provocou, bem como o sofrimento que o marxismo criou para as outras centenas de milhões de pessoas que conseguiram escapar e sobreviver.


NOTA:

R.J. Rummel, professor emérito de ciência política e finalista de Prêmio Nobel da Paz, é o mais aclamado especialista mundial em democídio, termo que ele cunhou para se referir a assassinatos cometidos por governos.  Escreveu o livro Death by Government, leitura obrigatória para qualquer pessoa que queira se inteirar das atrocidades cometidas por governos.  Ao todo, Rummel já publicou 29 livros e recebeu numerosas condecorações por sua pesquisa.


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Antipetismo não é suficiente

É comum que, na internet, pessoas de comum interesse se congreguem. Nos grupos onde o interesse comum é a direita política, tem-se de passar pelo suplício de ler, todo santo dia, alguma charge, alguma piada (agora em formato de meme), algum texto de blog, denunciando a corrupção do PT (Partido dos Trabalhadores). Digo suplício porque todos nós já sabemos do que se passa com o PT, lendo no jornal ou assistindo na televisão. Não é necessário ocupar também todo o tempo que ficamos na internet reclamando das mesmas coisas. Já explico.

Entre os esquerdistas, simplesmente ser anticapitalista não é o suficiente para determinar quem você é. Um anticapitalista pode ser um anarquista, um comunista, um fascista ou um nazista. Diz pouco sobre si afirmar-se anticapitalista. Do mesmo modo, para a direita, simplesmente ser antissocialista não é o suficiente para determinar quem você é. A coisa fica ainda mais estreita quando você afunila esta relação a um partido político.

Um antipetista pode ser do PSOL, pode ser do PCdoB, pode ser do PSB, pode ser do PSDB, do PTB, do PDT, etc… todos partidos notoriamente esquerdistas. Ele também pode ser de direita, é claro, mas para isso necessita de outros itens que compõem a sua identidade. Estes elementos que compõem a sua identidade são o que realmente importa: importa quem somos, não quem não somos. O que queremos, não só o que não-queremos. O que não somos é ilimitado, quem somos é específico. O que não queremos pode ser uma lista infindável, o que queremos pode ser obtido. Quem somos nós? Quais nossas idéias? Quem são nossos representantes? Nossos movimentos, nossos grupos, nossos símbolos, nossas publicações?

A militância contra um partido específico, por mais corrupto e nojento que este seja, é uma perda de tempo. Primeiro porque desperdiça tempo e recurso que deveria estar sendo empregado na construção da sua própria identidade, da identidade dos movimentos e dos novos partidos que virão: o tempo, meus amigos, é um recurso escasso, e é por isso que morrer é caro e o juro existe. Nosso tempo deve ser empregado na tarefa de “tornar-se invencível”, deve ser dedicado ao “conhece-te a ti mesmo”. Na composição, enfim, de um corpo de idéias e atitudes vigorosas no âmbito político, não necessariamente partidário.

Em último lugar, é necessário antecipar-se a uma questão. A corrupção não é partidária, é sistêmica. Nenhum dos partidos, atuais ou futuros, tem em si o gene da mudança, da probidade administrativa, da boa gestão: o Estado brasileiro é um Leviatã ingovernável. Cumpre reduzir o seu poder, os seus recursos, e só assim terminaremos com o pote de mel que alimenta a corrupção.