Em que Acreditam os Cristãos? (parte 1)

INTRODUÇÃO

Dando seguimento à série de artigos que pretende resumir o pensamento do escritor inglês C. S. Lewis, esse trabalho aborda a exposição de ideias presente no livro II da obra “Cristianismo Puro e simples”. Utiliza-se uma abordagem parafraseada da obra em questão. Assim, diferente dos demais artigos até aqui produzidos, o nome do autor não será diretamente citado, exceto quando for estritamente necessário.

Sobre a diferença entre o panteísmo e o cristianismo

A fim de apresentar a diferença essencial entre a visão panteísta de mundo e a cristã, C. S. Lewis trata da forma como esses pontos de vista interpretam a natureza do universo, e como ambos relacionam a criação ao criador.

Enquanto o panteísmo atribui ao universo uma natureza “imersa” na divindade, o cristianismo separa-o de seu criador. De modo mais claro, segundo o panteísmo, tudo o que existe no mundo e no universo é parte integrante de Deus. Segundo a visão cristã, o universo existe de modo separado de quem o criou. Embora o cristianismo compreenda que há uma imanência divina na criação, Deus existe de modo infinitamente distinto do universo por ele criado. Talvez o leitor esteja se perguntando: “o que é a imanência de Deus no universo?”. Bem, em linhas gerais, todo o universo é permeado internamente pela ação divina. Ao mesmo tempo em que existem leis que regem a natureza e o universo, Deus realiza uma constante operação interna na criação. As Escrituras Sagradas expressam essa atuação de Deus nas criaturas e no universo em passagens como: “Não está longe de cada um de nós: porque Nele vivemos nos movemos e existimos.” (Atos 17, 27-28). Ele faz com que o seu sol se levante sobre bons e maus, e faz descer a chuva sobre justos e injustos (Mateus 5,45). Nenhum passarinho cai em terra sem a vontade Dele, e os cabelos de nossa cabeça estão todos contados por ele (Mateus 10,29-30). O coração do rei é, nas mãos do Senhor, como ribeiros de águas: que o inclina a todo o Seu querer (Provérbios 21,1). Deus é imanente ao mundo no sentido de que tudo o que existe é controlado e sustentado por Ele. Mas essa atuação divina não exclui as causas secundárias que operam os fenômenos naturais, como as leis da física, por exemplo.

O panteísmo exalta tanto a imanência de Deus na criação que não distingue Deus do universo. Para os panteístas todas as criaturas e o próprio universo são partes de Deus. Ou seja, para eles não existe um Deus separado de sua criação. Tudo o que existe é divino por ser parte de Deus. Essa forma de pensamento anula a transcendência divina, de modo a atribuir o bem ou o mal a simples pontos de vista. Já que os humanos são extensões de Deus, cabe a eles interpretar o que é bom ou mau. Não existem verdades morais absolutas, pois não há um Deus acima da natureza com o qual possamos nos relacionar. A visão panteísta compreende o relacionamento com Deus como um relacionamento com a natureza e o universo. Não há – nessa concepção filosófica – qualquer ente superior ao qual devamos dar satisfações dos nossos atos, logo, não há a necessidade de se preocupar com o pecado nem de se prestar culto a qualquer ente metafísico, já que Deus e o universo são a mesma coisa. Esse posicionamento foi adotado por pensadores famosos como Baruch Espinosa, Albert Einstein e Hegel.

Em síntese, o termo imanência pode ter dois significados. Um legítimo e outro ilegítimo. O legítimo se refere à atuação do ser de Deus na manutenção do ser do universo e de suas criaturas. O ilegítimo afirma que a substância de Deus é inerente à substância do universo. Esse significado da imanência entrelaça a existência de Deus à existência do universo. Raciocinando à luz do panteísmo, caso o universo material deixe de existir (e deixará), Deus também será extinto.

O pensamento cristão entende Deus como um ser que permeia a criação, mas independe dela para existir. O Deus bíblico tirou da “mente” o espaço, o tempo, a matéria. Deu ao universo a substância que possui, mas é eternamente autônomo em substância. Deus é. O universo passou a existir em algum momento. Deus sequer integra a existência, pois o que existe está intrinsecamente unido a contingências. Ou seja, tudo o que existe passou a existir em algum instante e poderia não ter existido, da mesma forma que deixará de existir um dia. Deus não passou a existir, por isso não está ligado às contingências. Melhor explicando, o universo material está atrelado a possibilidades. Alguém pode estar vivo amanhã ou não. Podemos adoecer ou não. Alcançar algum objetivo, etc. Para Deus essas possibilidades não existem, pois toda a existência deriva Dele, ao mesmo tempo em que Ele não integra o plano das existências, mas da eternidade. Eternidade no sentido de metafisicamente necessário e qualitativamente inalterável. Assim, Deus transcende a existência. Ele não existe, Ele é. Essa abordagem filosófica do cristianismo apresenta aos homens um Ser superior ao qual devem render obediência e gratidão. A esse respeito Wayne Grudem declarou:

No ensinamento da Bíblia, Deus é ao mesmo tempo infinito e pessoal: ele é infinito porque não está sujeito a nenhuma das limitações da humanidade, ou da criação em geral. É bem maior do que qualquer coisa que exista. Mas é também pessoal: relaciona-se conosco como uma pessoa, e podemos nos relacionar com ele como pessoas. Podemos orar a ele, adorá-lo, obedecer-lhe e amá-lo, e ele pode falar conosco, alegrar-se conosco e nos amar.(GRUDEM, 1999)

(CONTINUA)

Referências:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, p. 17-19.

GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.115.

O que existe por trás da Lei Moral (parte final)

Lewis aborda os dois pontos de vista a respeito das origens do universo. O materialista e o religioso. O primeiro defende a existência da matéria e do espaço por meio de combinações aleatórias, que produziram formas de vida menos complexas, as quais evoluíram mediante processos naturais até a produção da forma de vida mais complexa que conhecemos: o ser humano. Não há qualquer vontade ou propósito para a existência do universo, segundo esse ponto de vista. Já a explicação religiosa defende que algo “por trás” do universo o criou por meio de uma escolha e para uma finalidade. Algo mais parecido com uma mente. Algo consciente e pessoal. Muitos desígnios desse ser permanecem ocultos, mas outros são totalmente claros como, por exemplo, o de criar seres semelhantes a Ele. Ou seja, criar seres dotados de mentes.

            Qual dos dois pontos de vista está correto? C. S. Lewis salienta que a ciência observa os fatos da natureza. Ela pode explicar os fenômenos naturais, bem como pode saber a composição dos seres e dos elementos que produzem determinados fenômenos biológicos, climáticos, etc. Mas a ciência não pode dizer se há algo “por trás” dos fatos ou fenômenos da natureza.  A ciência pode conhecer e estudar o universo material. Mas não pode responder às perguntas: “por que o universo existe e continua a existir?” “Qual é o seu significado?”. Essas indagações não são científicas porque suas respostas não podem ser alcançadas por meio do estudo do universo material. A ciência se limita a explicar os fatos observáveis da natureza. Se existe algo ou alguém “por trás” do universo, esse algo ou alguém não pode ser observado. Logo, não pode ser objeto da investigação científica. Caso exista, ou se manterá desconhecido aos homens, ou se revelará por outros meios.

            Em toda a natureza há apenas um único ser que podemos observar por dentro. Um ser que podemos conhecer o interior para estudá-lo além do que se pode observar dele. Esse ser somo nós. Somos capazes de conhecer o interior dos seres humanos porque somos humanos e, a partir desse conhecimento, nos deparamos com a realidade da lei moral que não foi criada por nós. Essa lei nos mostra que há uma influência, uma voz de comando que nos incita a agir de uma forma, enquanto agimos de outra. Alguém que estudasse o homem a partir de seus atos, jamais teria conhecimento da Lei Moral ou Lei da Natureza Humana, pois teria acesso somente ao que fazemos, ao passo que a Lei Moral trata do que devemos ou deveríamos fazer. 

A ciência observa a natureza pelo exterior. Jamais poderíamos chegar ao algo ou alguém “por trás” do universo, senão por meio dos seres humanos porque é somente nele que se manifesta uma lei que transcende aos fatos observáveis. Os homens agem de uma forma, mas a lei os influencia a agir diferente. De onde vêm esses comandos? De uma convenção humana? Se todos os homens chegassem a um consenso sobre a moralidade, por que a Lei Moral quase sempre os influencia a se comportar de um modo diferente do que eles desejam?   De onde vem essa noção de certo e errado que transcende épocas, culturas e opiniões pessoais? O egoísmo é proveitoso em muitos casos, então por que os homens concordam acerca da negatividade desse comportamento? O altruísmo tende a trazer mais incômodos do que benefícios a seus adeptos, então por que ele é considerado positivamente?

A partir desses dados é possível deduzir que esse Algo “por trás” do universo existe e se parece com uma mente. Se tudo o que existe no universo se limita à matéria, de onde vem essa Lei Moral que mais parece produto de uma mente? Onde há uma mente pode existir uma pessoa. Mas não entremos agora nesse mérito.

CONCLUSÃO

            Segundo o ponto de vista materialista para a origem do universo, tudo o que existe é a realidade material. Não há nada “atrás” ou “acima” dos fatos observáveis da natureza que a ciência estuda. Mas essa afirmação dada pela ciência não é científica, pois como a ciência pode dar respostas acerca de realidades que ela não pode observar e, consequentemente, estudar? Outro ponto deve ser reiterado. Se tudo o que existe é o universo material, de onde vem essa voz de comando que incita os homens a praticar o certo e gera neles o incômodo pelos erros cometidos? Essa influência vem da Lei Moral ou Lei do Certo e do Errado, que nos leva à existência de Algo “por trás” dessa lei. Esse Algo mais se assemelha a uma mente e onde há uma mente há uma pessoa. Um legislador universal, talvez.

Em suma: o ponto de vista materialista não explica a origem nem a razão de existir dessa Lei Natural. Assim, o ponto de vista religioso, para a explicação das origens do universo, se mostra mais coerente. Segundo essa visão o universo é regido por leis fixas, mas há um Ser superior que criou tanto o universo quanto essas leis fixas que o regem. Esse Ser transcende a natureza, por isso não pode ser observado nem estudado pela investigação científica. Quem é esse Ser? Essa resposta exige outra espécie de argumentação.   

Referência:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, p. 17-19.

O que existe por trás da Lei Moral? (parte 1)

O QUE EXISTE POR TRÁS DA LEI MORAL?

Em resumo ao que Lewis considerou sobre a Lei Moral ou Lei da Natureza Humana, lembremos que as pedras, as árvores, os elementos da natureza em si, são regidos por leis naturais. Todavia, ao nos referirmos a essas leis naturais, nos voltamos não a leis propriamente ditas. Ou seja, ao afirmarmos que existe uma Lei da Natureza que rege os seres e o universo, estamos afirmando na verdade como a natureza de fato se comporta. Como foi explicado, ao se dizer que as pedras obedecem à Lei da Gravidade, tudo o que se está afirmando é como as pedras se comportam ao serem lançadas ao ar: elas caem.

Quando as árvores possuem formas que não beneficiam aos homens, seja porque elas não fornecem sombra o suficiente ou por qualquer outra razão, elas não são consideradas culpadas por isso. As árvores possuem determinado formato ou altura porque são assim e ponto final. Não existe a menor evidência de que elas se comportam de uma forma, mas há alguma lei que as incite a agir de outra maneira. O modo como as pedras, as plantas, os animais, o sol, a lua, as estrelas se comportam, reflete exatamente o que esses elementos são. Logo, a Lei da Natureza é apenas uma força de expressão para Lewis. Sim, porque dizer que a natureza é governada por leis significa apenas dizer que a natureza se comporta de uma determinada maneira.

Não há qualquer indício de que realmente exista uma lei independente dos fatos ligados ao comportamento da natureza. Isto é, o que observamos da natureza é tudo o que podemos extrair dela. Não podemos afirmar, nem há qualquer “rastro” da realidade da Lei da Natureza como algo acima ou independente do comportamento dos elementos naturais. Mas o mesmo não ocorre em relação aos homens. A Lei da Natureza Humana ou Lei Moral nos mostra uma realidade transcendente ao comportamento humano. Ela nos diz algo que supera o que podemos observar do comportamento dos homens. Enquanto os homens se comportam de uma forma, essa lei nos diz como os homens devem se comportar. Algumas vezes há uma harmonia entre os deveres morais impostos por essa lei e a forma como agimos, mas na grande maioria do tempo vivemos num conflito. Agimos de uma forma, mas sabemos que deveríamos ter agido de modo diferente. Nisso se resume a realidade da Lei da Natureza Humana ou Lei Moral Objetiva. Uma lei que não inventamos, mas sabemos que devemos obedecer, embora não a obedeçamos na maioria das vezes.

A esse respeito, vale destacar um trecho da obra que resumimos:

No caso das pedras, das árvores e de coisas dessa natureza, o que chamamos de Lei Natural pode não ser nada além de uma força de expressão. Quando você diz que a natureza é governada por certas leis, quer dizer apenas que a natureza, de fato, se comporta de certa forma. As chamadas “leis” talvez não tenham realidade própria, talvez não estejam além e acima dos fatos que podemos observar. No caso do homem, porém, percebemos que as coisas não são bem assim. A Lei da Natureza Humana, ou Lei do Certo e do Errado, é algo que transcende os fatos do comportamento humano. Neste caso, além dos fatos em si, existe outra coisa – uma verdadeira lei que não inventamos e à qual sabemos que devemos obedecer (LEWIS, 1997).

            Lewis aborda os dois pontos de vista a respeito das origens do universo. O materialista e o religioso. O primeiro defende a existência da matéria e do espaço por meio de combinações aleatórias, que produziram formas de vida menos complexas, as quais evoluíram mediante processos naturais até a produção das formas de vida mais complexas que conhecemos como seres humanos. Não há qualquer senso de escolha, vontade ou finalidade para a existência do universo nesse ponto de vista. Já o ponto de vista religioso defende que existe algo “por trás” do universo. Algo mais parecido com uma mente. Algo consciente. Dotado de escolhas, vontade e propósito. Essa visão defende que um ser dotado de mente criou o universo. Muitos desígnios desse ser permanecem ocultos, mas outros são totalmente claros como, por exemplo, o de criar seres semelhantes a Ele. Ou seja, criar seres que possuem mentes.

CONTINUA

Referência:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, páginas 14-15.

Quando as empresas privadas ameaçam a propriedade privada

Se você comprou é seu, certo? Nem sempre. A maior parte dos eletrônicos que compramos hoje em dia vem com softwares proprietários. Softwares proprietários não são comprados, mas “alugados” através de uma licença que impõe uma série de restrições, na prática limitando severamente o que o “proprietário” do aparelho pode ou não pode fazer com o produto.

Um exemplo claro disso é o dos celulares Android que vêm com uma série de aplicativos da Google que simplesmente não podem ser desinstalados, mesmo que não sejam essenciais para o funcionamento do aparelho como YouTube, Maps, GMail, etc.: eles ficam lá para sempre ocupando o armazenamento do seu telefone mesmo que você não os use. Algumas empresas ainda forçam a atualização automática do software: a própria Apple foi acusada de reduzir propositalmente o desempenho dos aparelhos que não aceitassem a atualização do seu sistema operacional móvel. E o pior: desinstalar certos aplicativos requer que você faça um “root” do aparelho, o que frequentemente invalida qualquer garantia do fabricante.

E por falar em garantia, muitos fabricantes projetam os aparelhos de modo que somente o seu próprio serviço de manutenção ou um reparador licenciado pela empresa pode consertá-lo, de modo que a empresa monopoliza o seu conserto e manutenção, impondo preços altíssimos e frequentemente incentivando o cliente a simplesmente comprar outro produto em vez de consertá-lo. Isso, além de prejudicial para o cliente, é prejudicial para profissionais de manutenção independentes. Se esta prática já é questionável quando tratamos de aparelhos celulares, imagine quando envolve outros produtos muito mais caros e críticos, como veículos, maquinário agrícola e industrial e equipamento médico.

Somemos a isso o impacto ambiental. A restrição à concorrência no mercado de reparação de eletrônicos implica um aumento artificial das peças de reposição e do serviço de manutenção, dado que a empresa detém um monopólio sobre a manutenção do seu hardware. Ao impedir ou tornar irrazoavelmente caro o conserto de eletrônicos, estas práticas contribuem à diminuição da vida útil do seu produto (e do seu dinheiro), incentivando o descarte e aumentando a produção de lixo eletrônico.

Outro caso recorrente é tratar produtos digitais como “direito de acesso” a um arquivo, que pode ser revogado unilateralmente pelo fornecedor a qualquer momento. A Amazon, por exemplo, pode remover um livro digital da sua biblioteca a qualquer momento, sem importar se você pagou por ele ou não. Se você for suspenso da rede da Sony, poderá perder o “acesso” a todos os jogos que você comprou e pagou para jogar no seu Playstation, e assim por diante. Essa prática é extremamente repugnante. As próprias empresas privadas odiariam que o Estado tratasse a sua propriedade exatamente do mesmo modo como elas tratam a dos seus clientes, como uma mera concessão. Odiariam se o governo decidisse que a sua sede, com terreno, prédios e equipamentos, fosse considerada propriedade estatal com apenas “direito de acesso” revogável a qualquer momento.

O aumento no uso de software proprietário em produtos que anteriormente não os utilizavam também borra as fronteiras entre “possuir um produto” e ter “direito de acesso a um produto”, destruindo a livre concorrência e limitando o acesso dos consumidores a serviços de reparação, manutenção e customização tanto de hardware como de software. Se esta situação já é extremamente incômoda para um bem pessoal como um celular, as consequências são muito mais pesadas sobre os pequenos e médios empresários que empregam tecnologia como fator de produção. Uma cláusula abusiva em um contrato é capaz de paralisar uma pequena empresa, gerando impactos sociais e econômicos.

Não faz sentido usar o direito de propriedade para tolher o direito de propriedade alheio. Não faz sentido usar a liberdade de mercado para tolher a liberdade alheia. Propriedade privada e liberdade de contrato não é só para fabricantes e comerciantes, é para seus clientes também. Se você comprou, é seu. Você, como consumidor, tem direito de fazer com o aparelho que você comprou o que bem entender. Atualizar o software quando e como quiser, ou não atualizar se não quiser. Removê-lo se achar conveniente. Abrir o aparelho e consertar ou repor peças por conta própria, ou levá-lo para consertar onde você escolher, não onde a empresa determinar. Nenhuma empresa deve ter o direito de revogar unilateralmente o seu “acesso” a um produto digital pelo qual você já pagou, ou impedir você de utilizar um hardware com o software de um concorrente e vice-versa.

Uma série de iniciativas estão sendo propostas para promover os direitos do consumidor a usar e consertar livremente os seus produtos. Se você se interessa pelo assunto e gostaria de aprender mais sobre ele, algumas iniciativas dignas de nota são:

Electronic Frontier Foundation – www.eff.org
The Repair Association – www.repair.org
I Fix It – www.ifixit.org
The Coalition for Auto Repair Equality – www.careauto.org

A Realidade da Lei Moral

O Certo e o Errado existem?

Afinal, existe realmente uma lei que determina a forma como os homens devem se comportar que é diferente do comportamento efetivo deles? Bem, Lewis responde a essa pergunta partindo da ideia de que há um padrão de comportamento que os homens se sentem obrigados a obedecer, mas que, efetivamente, não conseguem praticar integralmente. Para ele esse padrão é a decência, lei natural ou moral. Da qual não podemos fugir. Ele se utiliza de alguns argumentos que aponta como evidências da realidade dessa lei.

Em primeiro lugar, ele afirma que os homens se culpam ou culpam uns aos outros, por não agirem quando deveriam agir, ou por agirem da forma errada. Ora, os humanos culpam uma pedra ou uma árvore por possuírem determinadas características? Por exemplo, culpamos uma pedra por não ter uma forma específica, ou uma árvore por não nos fornecer sombra o suficiente? Quando isso ocorre o que está em jogo é o uso que podemos fazer desses elementos, mas uma árvore ou uma pedra obedecem somente à natureza que a elas é inerente. A “culpa” de uma pedra por não ter o formato necessário para ser utilizada em uma construção, ou a culpa de uma árvore por não ser capaz de fornecer a sombra da qual alguém precisa, são “culpas” que na verdade não existem. Ou seja, quando consideramos uma pedra ou uma árvore como “má” ou “boa”, em razão do uso que podemos fazer desses elementos, atribuímos a eles qualificações de acordo ao nosso ponto de vista. Tanto a pedra quanto a árvore continuarão sendo obedientes à própria natureza, independentemente do que pensemos a respeito delas.

Quando uma pedra obedece à lei da gravidade, por exemplo, ela simplesmente é o que é. Não há a menor probabilidade de uma pedra cair porque ela se lembra do dever de cair. Tanto as pedras quanto os demais objetos pesados caem porque são o que são. Não porque a eles é imposto algum dever de comportamento. Mas isso não ocorre com os seres humanos. Nenhum homem culpa uma pedra por ser o que é, mas os homens elogiam ou condenam a forma de agir uns aos outros.

No resto do universo não há certeza alguma, nem ao menos evidências, de que a natureza se comporte de uma forma, ao mesmo tempo em que exista algo acima da natureza que exija dela um comportamento diferente. Mas a lei da natureza humana se relaciona à exigência de um padrão de comportamento que impõe aos homens uma determinada forma de agir, a qual os humanos nem sempre conseguem obedecer.

Uma das falsas explicações à existência da lei moral ou natural é a de que quando consideramos uma conduta como errada, esse julgamento é igual ao praticado quando avaliamos o “erro” na forma de uma pedra ou de uma árvore. Isto é, as pessoas classificam condutas como certas quando essas condutas são convenientes para elas, enquanto consideram erradas as condutas que para elas são desfavoráveis ou inconvenientes. Lewis refuta essa pretensa explicação de um modo simples.

Quando na guerra, por exemplo, os oponentes se utilizam de traidores para adquirir informações privilegiadas, eles ganham vantagens e dão recompensas a seus informantes, mas os consideram vermes em forma humana. Assim, a conduta dos traidores é avaliada como repugnante, mesmo para quem dela retira enorme utilidade. Da mesma forma a boa conduta pode trazer desvantagens, como quando alguém diz a verdade e dela obtém algum sofrimento, ou quando pode copiar o dever de casa sem cansaço, mas se esmera para fazê-lo honestamente. Por essa simples didática Lewis refuta o argumento que dá à conveniência humana o condão de qualificar condutas como boas ou más, apenas quando delas retira benefícios ou prejuízos, respectivamente.

Outros afirmam que os homens taxam determinadas condutas, como boas, quando elas contribuem para o bem da sociedade. Mas Lewis objeta. Existem condutas que são consideradas boas, mas não são convenientes para quem as pratica, como exposto acima. Quando se pergunta: “Por que devo ser altruísta?” Os contrários à lei natural respondem: “Por que você deve contribuir para o bem da sociedade.” Ocorre que, mesmo quando se age para o bem da sociedade, é possível praticar condutas injustas ou más. Antes foi dado o exemplo de alguém que, separado do conceito de justiça, falsifica provas judiciais ou compra testemunhas para alcançar algum benefício coletivo (acréscimo meu).

CONCLUSÃO

As condutas que os homens chamam de boas ou más, nem sempre são assim tratadas por produzirem benefícios, muitas vezes ocorre o oposto. Os homens não se comportam de uma forma que exclua o dever de se comportar de uma maneira diferente. Todos sabem quando agem de uma forma contrária à que deveriam ter agido. Isso não ocorre com os demais seres, eles apenas agem da forma que são. Agem conforme a própria natureza e ponto final. Não podem ser culpados por serem o que são. Há condutas certas e erradas. Mesmo quando o bem produz resultados inconvenientes e o mal traz benefícios, o mal sempre é reconhecido como mal e o bem como bem.

A lei natural ou a lei do “certo” e o “errado” não é produto de uma conveniência humana, pois os bons comportamentos (na maioria das vezes) não são convenientes, assim como as más ações nem sempre são inconvenientes aos seus praticantes. Dessa forma, há bons indícios de que essa lei é real, não uma invenção humana como muitos alegam. Ela está acima dos fatos ligados ao comportamento humano, caso contrário não haveria a contradição – da qual não conseguimos fugir – entre o que fazemos e o que devemos fazer.